Outro dia, alguém me contou que estava fazendo tudo certo. Disse exatamente assim: tudo certo. Comia pouco açúcar, quase nenhum sal, caminhava todos os dias, fazia musculação três vezes por semana, bebia dois litros de água, passava protetor solar até para ficar em casa, dormia oito horas, tomava vitaminas, fazia exames regularmente e havia abandonado, com algum sofrimento, quase tudo aquilo que lhe dava prazer. Depois me contou que estava doente. Havia uma espécie de indignação em sua voz, não apenas tristeza ou medo. Indignação. Como se a doença tivesse quebrado um acordo. Fiquei pensando nisso depois que nos despedimos: em que momento começamos a acreditar que existe um acordo?
Talvez seja uma das fantasias mais poderosas do nosso tempo: a de que, se fizermos tudo corretamente, nada de verdadeiramente ruim nos acontecerá. Há protocolos para dormir, aplicativos para respirar, relógios que contam nossos passos, aparelhos que vigiam o coração enquanto estamos distraídos vivendo. Sabemos quantas calorias ingerimos, quantas horas permanecemos em sono profundo, quantos minutos passamos sentados, qual é nossa idade metabólica e, provavelmente, em breve algum objeto preso ao pulso nos avisará que estamos começando a ficar tristes. Não há nada de errado nisso. Cuidar-se é uma forma de amor. Fazer exames é sensato, caminhar faz bem, passar protetor solar também. O problema talvez comece quando o cuidado deixa de ser cuidado e se transforma numa espécie de contrato com a eternidade: faço tudo certo, portanto, nada pode me acontecer.
Mas acontece. O corpo falha, uma célula enlouquece, uma artéria entope, um carro atravessa o sinal vermelho, alguém que amamos tropeça numa escada. Um exame que deveria apenas confirmar nossa tranquilidade encontra uma pequena sombra onde não deveria haver sombra alguma. E então nos sentimos traídos. Por quem? Talvez pela própria vida.
Durante milhares de anos, a humanidade soube – porque não tinha como esquecer – que viver era uma atividade perigosa. As pessoas nasciam cercadas pela morte. Crianças morriam, mulheres morriam no parto, uma febre podia levar alguém em três dias, uma infecção banal podia terminar uma história. A morte morava perto, tinha cadeira na cozinha, aparecia nas fotografias de família. Felizmente, muita coisa mudou. A medicina nos deu anos que nossos antepassados não tiveram. Vacinas, antibióticos, cirurgias, diagnósticos precoces e tantas outras conquistas transformaram tragédias inevitáveis em doenças tratáveis. É uma das mais extraordinárias realizações humanas. Mas talvez, junto com essa vitória, tenha surgido uma ilusão inesperada: começamos a confundir prolongar a vida com derrotar a condição humana.
E a condição humana não se derrota. Envelhecemos, e essa frase tão banal tornou-se quase obscena. É curioso observar a quantidade de palavras que inventamos para não dizê-la. Envelhecimento saudável, longevidade, melhor idade, maturidade ativa, ageing well. Não tenho nada contra nenhuma delas. O que me espanta é o esforço necessário para esconder uma coisa absolutamente simples: ficamos velhos. A pele muda, os olhos mudam, o ciático começa a negociar conosco, pessoas que conhecemos desaparecem. Um dia entramos numa sala e percebemos que somos os mais velhos dali. Outro dia alguém nos oferece um assento no metrô e passamos três estações tentando decidir se agradecemos ou nos ofendemos.
Também adoecemos e um dia morreremos. Escrevo isso e percebo como a frase parece brutal, talvez porque tenhamos expulsado a morte da linguagem antes de expulsá-la das casas. Dizemos que alguém “partiu”, “nos deixou”, “fez a passagem”. Eu próprio tenho utilizado “desviver” ao invés de morrer. Porque às vezes parece que “desviver” se tornou uma espécie de viagem para a qual ninguém teve coragem de comprar a passagem. Mas morremos, e não digo isso com pessimismo. Ao contrário. Há alguma coisa estranhamente libertadora nessa constatação, porque, se não existe contrato, talvez possamos finalmente parar de viver como fiscais da própria existência.
Talvez eu possa comer um pedaço de bolo sem imaginar que estou encurtando minha vida em dezessete minutos. Talvez possa perder uma noite de sono porque uma conversa estava boa demais. Talvez possa aceitar que meu rosto está mudando sem tratá-lo como uma casa que precisa permanecer eternamente igual à fotografia do anúncio imobiliário. Cuidar do corpo, sim, mas talvez seja preciso também aprender a habitá-lo quando ele deixar de obedecer. Essa me parece uma das formas mais difíceis de maturidade. Vivemos numa época extraordinariamente competente para consertar corpos e assustadoramente despreparada para aceitar que eles quebram.
E talvez seja por isso que tenhamos tanto medo. Não apenas da doença, da velhice ou da morte, mas do acaso, daquilo que não responde ao planejamento, daquilo que acontece apesar da dieta, do dinheiro, da prudência, da inteligência, dos exames e das boas intenções. Queremos garantias e a vida oferece probabilidades; queremos controle e a vida oferece circunstâncias; queremos saber quanto tempo temos e a vida permanece em silêncio.
Talvez nossos antepassados fossem mais familiarizados com essa precariedade não porque fossem mais sábios, mas porque não tinham escolha. Nós temos hospitais, seguros, previdência, estatísticas, algoritmos, check-ups. Construímos uma civilização inteira para diminuir a vulnerabilidade humana, e fizemos muito bem. Só esquecemos que diminuir a vulnerabilidade não significa eliminá-la. Continuamos sendo aqueles animais estranhos que sabem que vão morrer e, mesmo assim, marcam um almoço para terça-feira.
Talvez seja isso que mais gosto em nós. Compramos ingressos para o mês que vem, plantamos árvores cuja sombra talvez nunca aproveitemos, guardamos uma garrafa de vinho para uma ocasião especial, fazemos planos para dezembro, dizemos “até amanhã” com uma confiança estatisticamente injustificável. E quase sempre há um amanhã. Até que não há.
Não sei se a saída é aceitar a morte. “Aceitar” talvez seja uma palavra grande demais. Eu mesmo não sei se aceito. Gosto bastante de estar aqui. Talvez baste devolver à vida aquilo que sempre pertenceu a ela. O direito de não estar inteiramente sob nosso controle. Continuar fazendo exames, caminhando, tomando remédios quando necessários, passando protetor solar, comendo verduras, dormindo melhor, mas sem imaginar que estamos pagando prestações da imortalidade. Estamos apenas cuidando daquilo que, por algum tempo, nos foi emprestado. E talvez haja uma delicadeza imensa nisso: um corpo que envelhece não é um corpo que fracassou. É um corpo que chegou até aqui.
