OPINIÃO | Quando a voz se torna literatura

Acho que Thalles Cabral sempre desconfiou dos limites. E talvez seja por isso que é tão difícil dizer onde o músico termina e o ator começa, onde o compositor interfere no intérprete, ou onde todas essas experiências se encontram. Conheço seu trabalho há algum tempo e sempre fiquei impressionado com a forma como o artista transita entre linguagens sem parecer alguém que está apenas acumulando habilidades.

Na música, como cantor e compositor, desenvolveu uma voz muito particular, delicada, inteligente e permeada por uma espécie de inquietação que percorre suas canções. E há pelo menos uma delas que carrego comigo: You, the Ocean and Me de 2017 é uma daquelas músicas que, por razões muito particulares, faz parte da minha própria história.

No teatro, minha admiração é ainda maior. Thalles é um ator extraordinário, certamente um dos melhores de sua geração. Ele tem presença, precisão, pensamento, um domínio muito raro do que faz e, acima de tudo, aquela qualidade difícil de explicar que permite a alguns atores permanecerem no palco sem precisar reivindicá-lo o tempo todo.

Foi com essa imagem que comecei a ler Armado até os dentes, da editora O Quarto dos Livros. Conhecia o cantor, o compositor, o ator e pensei que encontraria o romance de um artista talentoso experimentando uma nova linguagem. Mas, então, algo bastante impressionante aconteceu. O livro me surpreendeu porque, após algumas páginas, essas categorias já não faziam muito sentido. Eu não estava lendo um ator que escreve ou um compositor que decidiu se aventurar na literatura. Eu estava lendo um escritor. E um escritor que parece já ter entendido uma das coisas mais difíceis na literatura: não basta ter algo a dizer, é preciso encontrar sua própria maneira de dizê-lo.

Armado até os dentes conta a história de um garoto de dezoito anos que está indo para o exército. O corpo, o medo, o desejo, a vergonha, as memórias de infância, pequenas humilhações, a violência e a necessidade de pertencer são expostos de uma maneira surpreendente. E lentamente, a princípio, o que poderia ter sido uma história de um jovem entrando no Exército começa a se tornar uma investigação muito mais perturbadora sobre a masculinidade.

E talvez essa seja a parte mais bonita do livro: Thalles nem sequer pergunta diretamente o que significa ser homem, mas a questão se instala desde o início da leitura. Quem nos ensina a ser homens? Em que momento aprendemos a suprimir o medo, a observar nosso próprio corpo e compará-lo com os outros, a transformar a fragilidade em vergonha? Quantas pequenas violações que geralmente são consideradas normais, e tantas vezes vistas como naturais, são ensinadas na educação de um menino para ajudá-lo a ser um homem antes que ele possa representar convincentemente o que o mundo decidiu chamar de homem?

Nesse sentido, o quartel se torna muito mais do que o quartel. É o lugar onde os corpos são examinados, alinhados, classificados, comparados e submetidos a uma certa ideia de disciplina, mas também é uma imagem poderosa de tantos outros espaços onde aprendemos a obedecer, competir, dissimular e nos conformar. Thalles vê tudo isso sem transformar seu livro em uma tese sobre masculinidade. Acho que essa é uma de suas forças como escritor: ele não exagera no que já construiu para a vida através da literatura.

O livro tem inteligência, humor, crueldade, ternura, tudo às vezes na mesma passagem. E ritmo. Talvez o compositor esteja em algum lugar nesta prosa, não porque possamos ouvi-lo em canção, mas porque Thalles parece consciente do timing de uma frase, do momento de interrompê-la, do que precisa retornar e do que pode permanecer apenas sugerido.

O ator também pode estar lá, na atenção ao gesto, ao corpo, ao constrangimento, ao que um personagem mostra precisamente quando tenta esconder. Mas essas referências já não importam porque tudo já foi transformado em literatura.

Terminei Armado até os dentes com uma sensação que acho que é uma das melhores que um livro pode provocar: a de ter encontrado algo que estava muito próximo de mim e que, mesmo assim, eu não conhecia.

E o que eu não sabia era que havia também um escritor que poderia criar sua própria voz, que poderia olhar para um lugar familiar e encontrar novas questões nele. Armado até os dentes me apresentou a esse outro Thalles. E que bela surpresa!

 

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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