Dois estudantes nossos estão em Bogotá. Escrevo essa frase e penso no que ela tem de simples e no que foi necessário para que pudesse ser escrita. Débora Gomes Silvério e Jorge Augusto Nunes de Sá, da linha de Direção, participam de um intercâmbio na Faculdade de Artes ASAB, da Universidade Distrital Francisco José de Caldas. Estão conhecendo professores, acompanhando processos, descobrindo maneiras de fazer teatro que talvez desarrumem um pouco as suas. Débora contou que a experiência tem sido importante para compreender a si mesma como alguém que cria e pensa teatro. Gosto de saber disso. Uma viagem começa a fazer sentido quando passa a interferir na maneira como alguém se reconhece.
Daqui, não temos como acompanhar tudo. E existe algo de bonito nessa impossibilidade. Uma escola precisa trabalhar para que seus estudantes cheguem a lugares onde ela já não possa conduzir cada passo. Preparamos condições, estabelecemos relações, cuidamos dos detalhes que permitem uma partida. Depois, uma parte da formação acontece longe dos nossos olhos. Eles encontrarão coisas para as quais não os preparamos, terão suas próprias dificuldades e descobrirão recursos que talvez nem soubessem possuir. Também levaram alguma coisa daqui. Bogotá recebe dois estudantes brasileiros que têm o que aprender e o que oferecer.
Enquanto eles estão na Colômbia, recebemos em São Paulo o coletivo Vauriomania, de Helsinque, para uma residência artística e atividades de extensão. Nos dias 4 e 5 de novembro, a atriz Jonnakaisa Risto ministra a oficina gratuita “Co-ator: Marionete”, na unidade Roosevelt. Seu trabalho propõe uma investigação com as mãos, o corpo e a animação de bonecos. O coletivo também recorre ao grotesco e a narrativas surreais para tratar de desigualdade, burocracia e das falhas do Estado de bem-estar social.
Fico pensando no que acontece quando essas questões chegam à nossa sala de aula. A Finlândia ocupa, para muitos brasileiros, o lugar de uma sociedade que teria resolvido quase tudo. Mas chegam os artistas, com seus bonecos, e aparecem as contradições, os incômodos, aquilo que a imagem de um país não consegue contar. O teatro tem essa capacidade de nos devolver a complexidade das pessoas. Quem vem de longe também traz dúvidas. Podemos trabalhar juntos a partir delas.
Também está conosco a professora e atriz Ulrika Malmgren, que apresenta em São Paulo “Anna, você pode ficar”, coprodução do Darling Desperados com Os Satyros. Escrito por mim e por Rodolfo García Vázquez, que assina a direção, o espetáculo acompanha duas irmãs ligadas ao circo, às perdas e a desejos que já não coincidem inteiramente. Ulrika chega com sua experiência de professora e com o trabalho de uma atriz. Interessa-me essa convivência. Quem ensina teatro continua sujeito às dificuldades de fazê-lo: precisa experimentar, rever escolhas, se expor diante dos outros. A sala de aula ganha muito quando essa condição permanece viva.
Outra colaboração começa a se desenvolver com Sanna Ryynänen, da Universidade do Leste da Finlândia, no projeto “Entre Florestas”, que também está conosco neste momento e que reúne sua universidade, a Universidade Federal do Pará e a SP Escola Superior de Teatro. A proposta aproxima ciências sociais, artes e saberes comunitários e indígenas para pensar e criar futuros sustentáveis, com atividades previstas até 2028. O nome me faz demorar um pouco. Entre florestas existem distâncias imensas, modos diferentes de viver e de conhecer, histórias que precisam ser ouvidas com cuidado. Aproximá-las exige disposição para perceber também o que não pode ser traduzido depressa.
Penso que temos muito a aprender nesse trabalho, inclusive sobre o lugar de onde falamos. Estar em São Paulo pode nos dar uma falsa impressão de proximidade com tudo. Uma parceria com o Pará pode exigir deslocamentos tão profundos quanto uma viagem à Europa. Para uma escola de teatro, reconhecer isso tem consequências: muda as referências que procuramos, as pessoas que convidamos, as perguntas que julgávamos suficientemente respondidas.
Quando reúno esses acontecimentos, sinto alegria, mas também responsabilidade. Uma programação internacional pode parecer uma sucessão de nomes, países e datas. Para nós, cada encontro precisa chegar à formação. Precisa encontrar tempo, tradução, condições de trabalho e espaço para que os estudantes participem. A gratuidade faz parte desse compromisso: o acesso a uma experiência artística não deveria depender da possibilidade de comprar uma passagem.
Talvez eu esteja pensando em tudo isso porque, depois de tantos anos de gestão, continuo interessado no que escapa aos relatórios. Precisamos deles, evidentemente. Mas existe um momento em que alguém escuta uma observação, acompanha um ensaio ou experimenta um exercício e passa a considerar uma possibilidade que antes não existia. Quase nunca sabemos a hora em que isso acontece. Às vezes, nem a própria pessoa sabe ainda.
Débora e Jorge estão em Bogotá. Na Roosevelt, preparamos a chegada de artistas e professores, e um projeto começa a aproximar nossas perguntas das florestas. No meio de tudo isso, seguimos dando aulas, organizando salas, acertando horários. É assim que uma escola cresce por dentro: alguém chega com uma experiência que nos faltava, alguém parte levando uma pergunta nossa, e o trabalho continua um pouco diferente.
