CRÔNICA | O lugar aonde não voltaríamos

Minha mãe morreu em 2009. Eu e alguns dos meus irmãos, desolados, começamos a pensar numa viagem. Queríamos estar juntos durante algum tempo, longe das coisas que precisávamos resolver e das pessoas a quem era necessário explicar como estávamos. Não sei o que esperávamos encontrar. Havia, porém, uma condição um pouco estranha, sobre a qual parecíamos de acordo: deveria ser um lugar muito distante, aonde nunca mais voltaríamos.

Hoje me pergunto de onde tiramos aquilo. Por que uma viagem de despedida precisava também de um destino do qual nos despediríamos? Na época, não fizemos essas perguntas. Tínhamos perdido nossa mãe e estávamos tentando combinar alguma coisa entre nós. Escolher uma viagem era uma tarefa que ainda conseguíamos realizar.

Estávamos na casa do meu irmão Dimi. Ele tinha um globo terrestre iluminado, desses que permitem olhar o mundo com a luz acesa por dentro. Dimi girou o globo e pousou um dedo em algum ponto entre a Suécia, a Finlândia e a Rússia. Foi assim que começamos a decidir o itinerário. O que viria a ocupar tantos anos da minha vida apareceu primeiro debaixo do dedo do meu irmão, numa sala onde sentíamos falta da nossa mãe.

Antes de embarcar, eu e Rodolfo entramos em contato com escolas de teatro daqueles países. Marcamos visitas. O teatro já tinha esse hábito de entrar nos nossos planos, mesmo quando os planos pareciam tratar de outra coisa. Íamos conhecer escolas durante uma viagem em família, conversar com pessoas que ainda não sabiam nada de nós. Não imaginávamos a duração que aqueles encontros poderiam ter.

Da Rússia ficou a passagem pelo itinerário. A Suécia e a Finlândia, porém, começaram a reaparecer na nossa vida. Voltamos, recebemos pessoas, inventamos trabalhos. Os nomes dos países foram ganhando nomes de amigos, de professores, de artistas. Passamos a ter a quem avisar que estávamos chegando. E aquele acordo entre irmãos, feito com tanta convicção, foi sendo desobedecido.

Penso nisso agora que “Anna, você pode ficar” chega ao Espaço dos Satyros, depois de sua trajetória pela Suécia. Escrevi a peça com Rodolfo, que também a dirige, numa coprodução dos Satyros com o Darling Desperados. Ao dizer essas coisas, poderia contar uma história de parcerias internacionais, apresentar os trabalhos realizados, lembrar a importância dos intercâmbios. Tudo isso existe e tem valor. Mas, antes, vejo Dimi girando o globo. Tenho alguma dificuldade de separar a história desse espetáculo daquela sala.

Na peça, duas irmãs envelhecem numa ilha no norte da Suécia. Anna e Jonna trabalharam no circo desde pequenas e agora precisam descobrir como continuar. A mãe morreu. Uma tia que havia fugido da guerra para o Brasil também morreu. Restaram cartas, lembranças, um segredo guardado por décadas e a convivência entre duas pessoas que se conhecem profundamente – o que nem sempre torna mais fácil viver juntas.

Anna deseja recuperar alguma coisa da vida circense. Jonna procura um futuro com o que tem à mão. Consigo compreender as duas. Quem trabalhou tantos anos em teatro conhece a dificuldade de distinguir o desejo de criar do desejo de reencontrar a pessoa que foi um dia. Às vezes queremos um palco. Às vezes queremos nosso corpo de antes, os companheiros de antes, aquela disposição com que entrávamos numa sala sem calcular quanto esforço seria necessário para sair dela.

E ainda assim o trabalho pode acontecer. Com outro corpo, com os companheiros que estão aqui, com uma ideia que talvez não tivesse sido possível na juventude. Isso não resolve a saudade. Apenas nos ocupa de um jeito que também pode produzir alegria.

Não sei quanto da morte da minha mãe entrou nessa peça. Desconfio das explicações que encontram, depois de tudo pronto, uma origem exata para cada coisa. Anna e Jonna têm suas próprias vidas, e seria pobre reduzi-las à minha. Mas reconheço a dificuldade que atravessa a casa delas. Alguém morreu, e os que ficaram precisam continuar se relacionando. A falta é compartilhada. A maneira de vivê-la, nem sempre. Um irmão quer sair, outro quer ficar. Um precisa falar da mãe, outro não suporta mais ouvir. O amor entre eles terá de encontrar espaço também para isso.

Nós escolhemos viajar. Não curamos nada com a viagem, nem havia como. Mas estivemos juntos em lugares que nossa mãe não conheceu, e alguma coisa começou ali, embora tivéssemos partido tão ocupados com o que acabara. Durante anos, a Suécia e a Finlândia continuaram nos chamando de volta. Tornaram-se uma espécie de segunda casa, construída aos poucos, entre visitas e trabalhos, sem que tivéssemos planejado morar afetivamente tão longe.

Agora esses amigos chegam a São Paulo para fazer teatro conosco. Vamos recebê-los, preparar as apresentações, conversar sobre o que funcionou na Suécia e o que acontecerá diante de outro público. Com a Finlândia, começa também uma nova pesquisa, em parceria com a Universidade do Leste da Finlândia e a Universidade do Pará. Ainda estamos descobrindo o que faremos juntos, e gosto de pensar que aquele gesto de Dimi continua encontrando desdobramentos que nenhum de nós poderia prever. No meio dessas tarefas, talvez eu conte mais uma vez a história do globo. É uma história de que gosto, sobretudo porque nós, que estávamos tão certos de nunca mais voltar, não sabíamos quase nada sobre o lugar para onde íamos

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Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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