Roberto Francisco e Henrique Mello são 2 presos que se desejam em Uma Canção de Amor

Eles estão de volta, dessa vez ao palco digital, com a história de dois homens prisioneiros de gerações distintas que se apaixonam. Os atores Roberto Francisco e Henrique Mello protagonizam a peça Uma Canção de Amor, sob direção de Rodolfo García Vázquez e Gustavo Ferreira. 

A produção da Cia. de Teatro Os Satyros tem dramaturgia de Vázquez e Ivam Cabral a partir de dramaturgismo da dupla de atores a partir da vida e obra do homoerótico autor francês Jean Genet (1910-1986). Aliás, Genet é velho conhecido de Francisco, que atuou na peça do parisiense O Balcão, em 1969, sob direção do argentino Victor García. O autor também é um dos ídolos de Mello. 

Uma Canção de Amor é a 12ª peça especialmente criada para o Espaço Digital dos Satyros, com sessões aos sábados, 21h, e domingo, 18h. A obra estreou originalmente em 2019, mas foi completamente reformulada pelos diretores para a estética do digital. O Blog do Arcanjo conversa, a seguir, com os dois atores sobre o espetáculo. Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado – Como vocês definiriam essa peça? Qual sua principal mensagem?
Roberto Francisco –
Como um ato de amor, um grito contra o preconceito, uma forma artística de resistir diante das amarguras do mundo e dos homens, uma ode à liberdade física através de metáforas que unem o homem e o mundo. Um momento de extrema solidão. Acho que a mensagem se mistura um pouco com a definição. Neste momento atual de confinamento onde cada um está “preso em sua cela particular” a peça liga duas pessoas isoladas em sua solidão dizendo que é possível resistir. É o momento da reflexão sobre nós mesmos, quem somos e o que fomos. A solidão pode despertar uma lição de inesgotáveis sentimentos.

Henrique Mello – Eu acredito que esse trabalho fala exclusivamente sobre o amor, não o amor romântico que idealizamos, mas sobre o amor essencial, que surge dentro de todos os seres, independentemente da sua trajetória de vida. Poetas, ladrões, assassinos e religiosos, amam. Talvez seja o sentimento mais democrático de todos.

Miguel Arcanjo Prado – É latente a forte química que vocês dois têm em cena. De onde ela vem?
Roberto Francisco –
Acho que a palavra amor cabe aqui. O amor pelo teatro, pela liberdade, pela diversidade, pelo respeito ao outro e a seus pensamentos. Quando nossas vidas se cruzaram, e não faz tanto tempo, descobrimos que temos muito de um no outro.  E a nossa entrega, de peito aberto, a esse amor.

Henrique Mello – Eu tenho uma enorme admiração e respeito pelo Roberto. A primeira vez que vi o Roberto Francisco, tive a sensação de conhecê-lo há muito tempo, como se tivéssemos vivido muitas coisas juntas. Não sei explicar muito bem.  Até no silêncio a gente se entende.  Sabe aquela liberdade de ficar em silêncio ao lado de alguém, sem ter que puxar assunto ou falar sobre alguma coisa qualquer? É isso.

Miguel Arcanjo Prado – Vocês são atores de diferentes gerações. O que um mais aprende com o outro?
Roberto Francisco –
É difícil responder com clareza, mas particularmente ele me proporcionou conhecer novas formas de enxergar o teatro, um teatro que devido a minha formação de “old school” eu desconhecia e que me cativou ainda que um pouco assustado. A jovialidade do Henrique Mello e o seu conhecimento sobre o fazer teatral me alimenta e me fortalece.

Henrique Mello – Roberto Francisco me ensina muitas coisas. Além dos seus conhecimentos técnicos, o amor incondicional pelos palcos e pela vida talvez sejam as mais importantes dessas lições. Ele ama a vida e a vida em cima de um palco.

Miguel Arcanjo Prado – Quais foram os principais desafios com a direção ao adaptar a peça para o digital? O que muda?
Roberto Francisco –
Basicamente a diferença de linguagem. Transpor a energia do público sobre nós para um trabalho solitário, cada um distante do outro, mas conservando o clima e a emoção do palco físico. Manter, independente do espaço em que nos encontramos, o clássico “olho no olho”, a energia que passa de um para o outro. Um enorme desafio. Muita coisa mudou. Expressões, emoções, climas, interpretações dos atores adaptadas ao formato de telinha, precisaram ser transformadas em imagens para completar as metáforas com a maestria que Genet concebeu sem perder a sua cruel poesia. Mas a direção, com sua experiência estética, conseguiu, não sem muito trabalho, unir o distante em proximidade. Muito suor, e mais uma vez com a presença da palavra amor.

Henrique Mello – O maior desafio foi o de se desapegar do fazíamos, pois eu estava acostumado com o espaço e as ações dentro dele. Me lembro basicamente das minhas falas pelas marcações físicas. Porém, nesse novo trabalho, precisamos descobrir novas formas de contar essa história, através de uma nova perspectiva, a digital. O Rodolfo [García Vázquez, diretor] e o Gustavo [Ferreira, diretor] são muito tranquilos e generosos, e isso é algo que nos transmite muita confiança em qualquer situação. Amo esses caras.

Fonte: Blog do Arcanjo, 8 de maio de 2021

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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