Pra mim, no teatro, os grandes encontros nascem fora do palco. Ou depois. Ou, às vezes, no intervalo invisível entre uma mensagem e outra, esse lugar onde a vida, sem ensaio, se revela.
Foi ali que nos encontramos.
Thiago me escreveu numa noite qualquer, dessas em que a vida parece indiferente. Não era exatamente um pedido de ajuda. Era pior. Era dúvida. E a dúvida, quando vem de alguém que ainda está começando, costuma vir misturada com um certo desamparo. Uma pergunta silenciosa: será que eu tenho direito de estar aqui?
Ele falava de comentários, de olhares, de uma crueldade cotidiana que a gente aprende cedo demais a naturalizar no teatro. Falava de não se sentir à altura. E eu reconheci imediatamente aquele lugar. Não nele. Em mim. Porque, em algum momento, todos nós já estivemos ali. Pior, muito pior. Alguns de nós nunca saímos completamente.
Respondi quase sem pensar: isso tem um nome – inveja. Mas também não vamos fingir que é só do outro. A gente escuta, a gente se abala.
Mas a verdade é que não era só sobre isso. Era também sobre o outro nome, aquele que raramente dizemos: medo. Medo de não corresponder. Medo de decepcionar. Medo de ser descoberto como alguém que, no fundo, ainda não sabe.
E, no entanto, ali estava ele. Trabalhando. Se esforçando. Sustentando um desejo.
Há algo de profundamente injusto na forma como o mundo distribui as suas certezas. Os que mais duvidam de si são, quase sempre, os que mais trabalham. E os que menos duvidam… bem, esses costumam falar mais alto. Mas Thiago não falava alto. Ele insistia. E foi por isso que o chamamos para trabalhar conosco.
Não como gesto de caridade. Isso seria uma violência. Mas como admiração. Porque há momentos em que a gente percebe: este corpo precisa estar aqui. Não por nós. Por ele. E, quem sabe, por aquilo que ainda pode vir a existir.
Ele veio da Bahia, com poucos amigos, carregando muitas batalhas invisíveis – essas, as mais duras. Chegou com uma disciplina rara e uma delicadeza igualmente rara. Foi ocupando espaço como quem aprende a respirar em um ambiente novo. Aos poucos. Com decisão.
E, naquele mesmo dia em que ele me dizia que não se sentia à altura, eu também estava em dúvida. Sobre a peça. Sobre seguir. Sobre tudo aquilo que a gente finge que já resolveu.
Nos encontramos, então, num buraco. E isso foi lindo. Porque há uma espécie de solidariedade silenciosa entre aqueles que não têm respostas prontas. Uma ética do inacabado. Um pacto quase secreto entre os que seguem apesar.
Thiago dizia: “ninguém duvida mais de mim do que eu mesmo”. E talvez seja isso. Talvez o trabalho do artista não seja eliminar a dúvida, mas aprender a caminhar com ela. Sem se diminuir para caber no olhar estreito dos outros.
Em algum momento da conversa, ele disse que me amava. Disse com urgência, como quem precisa garantir que o afeto chegue inteiro. E eu disse também que o amava. Porque, no fundo, não era sobre mim nem sobre ele. Era sobre encontrar, no meio da brutalidade do mundo, um lugar onde não fosse preciso se defender o tempo todo.
O teatro, quando acontece de verdade, é isso. Um espaço onde alguém pode dizer: “eu não sei se sou suficiente”. E, ainda assim, permanecer.
Hoje, penso que Thiago não precisava acreditar em si naquele momento. Bastava que alguém acreditasse por ele. Às vezes, é assim que a gente começa.
O resto vem depois. Ou não vem. Mas, ainda assim, a gente segue.
