Atravessar: notas sobre um encontro improvável

Às vezes, a vida não acontece nos grandes gestos. Ela se infiltra por pequenas frestas. Um aviso no celular, um nome que aparece onde não se esperava, um susto silencioso que, aos poucos, vai se transformando em reconhecimento.

Hoje foi assim.

O Google Alerts me avisou, quase sem cerimônia, que meu nome aparecia em uma publicação na Suécia < https://artistgruppen.se/clients/staffan-gothe/ >. Fui conferir e lá estava: inscrito no currículo de Staffan Göthe. Não como hipótese, não como desejo, mas como fato. Um dos grandes nomes do teatro sueco, aos 81 anos, com uma trajetória que atravessa décadas, havia interpretado uma personagem escrita por mim. E, de algum modo, meu nome agora se encostava ao dele

Interessante. Porque existem acontecimentos que não cabem no raciocínio imediato. Eles pedem um tempo mais lento, quase corporal, para serem compreendidos. Porque não se trata apenas de um dado, um crédito, uma linha em um currículo. Trata-se de uma espécie de deslocamento íntimo. Algo que, de repente, atravessa fronteiras, idiomas, climas, histórias.

Penso na trajetória de Staffan Göthe, escrevendo suas primeiras peças. Sim, o homem é um grande dramaturgo, um dos mais importantes. Penso no percurso que o levou à medalha Litteris et Artibus, às publicações, às traduções, ao cinema. E, em algum ponto dessa linha do tempo, quase como um desvio improvável, nossos caminhos se cruzam. Não por proximidade geográfica, nem por planejamento estratégico. Mas por aquilo que o teatro ainda tem de mais precioso: sua capacidade de fazer com que desconhecidos compartilhem uma mesma imaginação.

Nosso texto, Snön i Brasilien – Anna, du kan väl stanna, escrito com Rodolfo García Vázquez, atravessou o oceano, encontrou o grupo Darling Desperados, pelas graças das atrizes Ulrika Malmgren e Katta Palson, ganhou corpo no Moriska Paviljongen, respirou no Unga Klara. E, nesse percurso, encontrou um ator que já não precisava provar mais nada. E que, ainda assim, aceitou entrar em uma história nascida tão longe de seu território.

Talvez seja isso que me emocione mais: o fato de que, mesmo depois de tudo, alguém como Göthe ainda escolhe se arriscar no outro. Escolhe habitar uma escrita estrangeira. Escolhe escutar uma voz que não é a sua.

E então me dou conta de que o teatro, no fundo, é isso: uma longa cadeia de confiança. Alguém escreve. Alguém lê. Alguém acredita o suficiente para emprestar o próprio corpo. E, de repente, aquilo que era apenas uma ideia passa a existir no mundo. Com outra língua, outro sotaque, outro tempo.

Receber essa notícia não me torna maior. Mas me desloca. Me lembra que aquilo que fazemos, muitas vezes em condições precárias, com dúvidas, com urgências, com pequenos milagres cotidianos, pode, sim, atravessar. E chegar.

Hoje, por alguns instantes, senti isso com nitidez. E, sem exagero, pensei: talvez seja possível ser feliz assim.

 

 

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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