Fernanda Montenegro, a mulher que não cabe no tempo

Ah, eu preciso falar sobre ela. E já começo errando, ou acertando, no exagero: a Fernandona. Porque há nomes que não cabem no tamanho exato das palavras. Precisam crescer um pouco, inflar, ocupar mais espaço do que o dicionário permite. Fernanda Montenegro é assim: não cabe em si. Transborda.

Mas Fernandona… Ah, Fernandona desafia outra ordem de coisas. Não é só a história. Não é só o talento. É o tempo. Ou melhor, é o modo como ela se recusa a se submeter a ele. Aos 96 anos, ela não resiste ao mundo. Ela participa. E participar, hoje em dia, já é um gesto revolucionário.

Eu, que aos 60 já negocio silenciosamente com o cansaço – evitando eventos, calculando saídas, medindo o quanto de noite ainda cabe em mim, olho para ela e me sinto levemente desmascarado. Porque lá está Fernandona sempre. Estreia? Presente. Evento cultural? Presente. Vida? Intensamente presente.

E não é presença decorativa, dessas que apenas comparecem. É presença viva, interessada, quase faminta. Como quem ainda acredita que há algo a ser descoberto. E talvez haja. Talvez o segredo esteja exatamente aí. Não parar de supor que o mundo ainda pode surpreender.

Fico imaginando, com uma ponta de inveja bem-humorada, qual seria a academia dessa mulher. Mas logo entendo que não é disso que se trata. Não é o corpo que sustenta essa energia. É o desejo. E desejo, quando insiste, reorganiza tudo. Reorganiza o tempo, reorganiza o corpo, reorganiza a própria ideia de limite.

E então vem a lucidez. Porque não basta estar. Ela pensa. E pensa com uma clareza que não endurece, que não se fecha. Pelo contrário, parece expandir. Fernandona ensina sem querer ensinar. E talvez por isso ensine tanto.

Como se não bastasse, eis que estou ouvindo o novo disco de Marina Lima – outro sopro de vitalidade – e, de repente, quem aparece ali? Fernandona! Como se atravessasse também a música, como se não houvesse território que não pudesse habitar.

Outro dia, numa postagem dela no Instagram, escrevi que era nossa namorada. E era meio brincadeira, mas nem tanto. Porque há algo nela que nos convoca afetivamente. Como se fosse, de fato, uma presença íntima de um país inteiro. Uma espécie de pacto silencioso entre nós e aquilo que ainda nos emociona.

Obrigado, Fernanda – agora sem o “dona”, porque você mesma dissolveu essa distância. Com essa vitalidade toda, você nos puxou para mais perto. E talvez seja isso. Você não apenas vive. Nos convoca à vida, nos ensinando, delicadamente, a continuar.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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