Para falar da nova peça dos Parlapatões, vou começar brigando com Goldoni e com seu tempo. Nascido em Veneza, em 1707, e morto em Paris, em 1793, o dramaturgo escreveu a primeira versão de Arlequim, servidor de dois patrões em 1745. Na peça, Beatriz parte à procura de Florindo, o homem que ama, implicado na morte de seu irmão, Frederico, depois de um confronto cujas circunstâncias ela própria não sabe precisar. Os amantes se reencontram e o casamento se apresenta como uma promessa de felicidade. Mas eu fico pensando no morto. Frederico se opunha à relação dos dois, mas era irmão de Beatriz. Penso cá com meus botões: como se chega desse luto ao casamento? Que lugar terão as lembranças do irmão na vida que ela pretende construir ao lado de Florindo? A comédia segue adiante, ocupada em reunir os amantes, e eu permaneço nesse ponto, incomodado com a rapidez com que uma morte se acomoda ao passado quando o futuro dos que ficaram precisa começar.
Goldoni chega a dar voz ao sofrimento de Beatriz. Ela conta que chorou pelo irmão, reconhece que sua morte já não tem remédio e passa a lamentar a ausência de Florindo. É nessa passagem que alguma coisa me escapa. A irreversibilidade da morte pode encerrar a possibilidade de salvar alguém, mas o que fazer com tudo o que permanece? Beatriz poderá amar Florindo e compreender as circunstâncias do duelo. Terá, ainda assim, de viver com o fato de que ele matou seu irmão. As razões do confronto ajudam a compreender o acontecimento; a crueldade da perda continua inteira.
Sei que existem convenções, uma distância histórica e uma tradição teatral que ajudam a compreender esse arranjo. Fico pensando se outros espectadores, outros críticos, ao longo dos anos, também permaneceram diante desse morto enquanto a comédia celebrava seus casais. O duelo pertence a um código de honra, e a reunião dos amantes atende à promessa do gênero. Consigo acompanhar essa lógica, mas continuo sem saber como Beatriz atravessa o que aconteceu. O casamento encerra uma história que, para mim, ainda teria muito a enfrentar.
Esse incômodo voltou ao assistir à montagem dos Parlapatões, no Sesc Bom Retiro, com adaptação e direção de Hugo Possolo. Saí do teatro ainda pensando nessa questão, mas também com a alegria de ter visto um dos melhores trabalhos da trajetória do grupo. Minha resistência ao desfecho de Goldoni conviveu com o prazer de acompanhar uma companhia que conhece profundamente seu ofício e encontra maneiras vivas de levar essa obra ao palco. A contradição permaneceu comigo depois da apresentação e faz parte do que tenho a dizer sobre ela.
A aproximação entre a commedia dell’arte, o circo e a cultura popular brasileira encontra nos Parlapatões uma longa história de pesquisa e prática. São linguagens exercitadas no contato com o público, na necessidade de conquistar sua atenção e de responder ao que acontece a cada apresentação. Nesta montagem, essa experiência sustenta o jogo dos atores e dá unidade ao espetáculo. Hugo dirige a partir de um repertório construído com o grupo, atento às possibilidades que ele ainda oferece e à maneira como cada intérprete pode habitá-lo.
Quero nomear esse elenco: Alexandre Bamba, Camila Turim, Demian Pinto, Guilherme Calzavara, Henrique Stroeter, Jéssica Turbiani, Raquel Ripani, Robert Gomes, Sabrina Cristina, Tadeu Pinheiro e Victor Martins, além do próprio Hugo. Uma comédia dessa natureza depende da atenção entre os intérpretes, do ritmo compartilhado, da capacidade de preparar uma situação para que outro possa desenvolvê-la. Parte do prazer de assistir está em perceber essa construção coletiva: alguém oferece uma intenção, outro a recebe, modifica seu alcance, prepara o próximo encontro. As presenças individuais ganham força nessa circulação.
Dentro desse conjunto, o Arlequim de Hugo merece atenção especial. A personagem precisa encontrar saídas antes de compreender inteiramente os problemas que criou, e seu corpo participa desse pensamento apressado. A fome, o interesse e a necessidade de administrar as próprias confusões dão consequência às ações. O trabalho do ator está em fazer com que acompanhemos essa lógica, por mais desastrosos que sejam seus resultados. Arlequim movimenta boa parte dos encontros e desencontros da peça, e Hugo sustenta essa responsabilidade em relação constante com os parceiros.
Sua experiência aparece nas decisões de tempo e medida. Quanto uma situação pode durar, em que momento uma intenção se torna legível, como uma reação prepara o que virá depois. A atuação cômica exige essa percepção do conjunto e uma disponibilidade para o instante da apresentação. Em Hugo, o domínio da linguagem permite que o jogo tenha liberdade sem perder sua construção. A aparente facilidade com que conduz Arlequim torna menos visível o trabalho que a sustenta, e talvez por isso seja importante nos determos nele.
Penso que a familiaridade com Hugo – o palhaço, o diretor, o dramaturgo, o fundador de um grupo tão presente na vida teatral de São Paulo – pode fazer com que dediquemos menos atenção ao ator. As muitas funções que exerce acabam se sobrepondo quando falamos dele. Seus trabalhos deste ano oferecem uma boa ocasião para observar com mais cuidado os recursos de interpretação que reuniu ao longo da carreira e a maneira como os emprega em propostas diferentes.
Em Idiota Convicto, sobre o qual já escrevi, a sucessão de figuras e de universos dramatúrgicos exigia mudanças de registro e a capacidade de sustentar, sozinho, a relação com a plateia. Em Arlequim, sua atuação depende de outra organização. Cada movimento participa de uma engrenagem coletiva, alimentada pelas relações entre as personagens. Vistos no mesmo ano, os dois trabalhos permitem reconhecer a amplitude de seus recursos, a precisão de suas escolhas e a consistência com que passa de uma proposta à outra. São razões pelas quais o considero um dos melhores atores de nossa geração.
É nesse sentido que penso em 2026 como um ano de Hugo Possolo. As duas atuações merecem a atenção da crítica pelo que apresentam de elaboração e realização em cena. Para quem acompanha sua trajetória, é uma alegria vê-lo reunir, nesses trabalhos, tantos anos de investigação do ofício. Saí do Sesc Bom Retiro com essa alegria e ainda às voltas com Beatriz, Florindo e o morto que o casamento não me fez esquecer. O teatro daquela noite comportou as duas coisas, e sigo pensando nelas.
