Um espelho eu não tive. Na adolescência, tive alguns cacos. Pequenas superfícies em que procurava reconhecer alguma coisa de mim, ensaiar o rosto do homem que ainda não sabia como seria. Uma pessoa, um gesto, um modo de ocupar a rua. Eu recolhia essas imagens sem saber que estava fazendo isso. Hoje penso que uma parte da nossa formação acontece assim. Olhando para alguém que parece ter conseguido viver um pouco além do que nos permitiram.
Eu tinha quinze anos quando comecei a perceber os dois. Eram namorados, três ou quatro anos mais velhos. Ficavam sentados num banco escondido da praça, fumando maconha. Muito isolados, quase sempre juntos. Eu os observava com a admiração de quem descobre uma passagem onde até então só conhecia paredes. Faziam coisas que os outros não faziam, ou não admitiam fazer. Eu queria ser como eles, embora ainda não soubesse exatamente o que isso significava.
Ela não era mais virgem. Escrever isso hoje exige lembrar o peso que essa informação tinha naquele tempo, numa cidade pequena. O que me impressionava era que ela não parecia disposta a se diminuir por causa disso. Havia uma afirmação naquela moça, uma maneira de pertencer a si mesma que me alcançava, mesmo que eu não tivesse palavras para compreender. Antes de conhecer certas ideias sobre liberdade, eu a vi sentada num banco de praça.
Talvez os dois se sentissem sozinhos. Talvez aquele isolamento lhes doesse. Eu não sabia quase nada da intimidade deles e, aos quinze anos, tinha pouca condição de distinguir a coragem do desamparo. Via dois jovens que pareciam suportar o olhar da cidade sem pedir desculpas. Para um menino que procurava como existir, aquilo era muito.
Depois, cada um foi para um lugar. Ele se mudou para Curitiba. Ela, para uma cidade grande do interior de São Paulo. Aos dezoito anos, quando saí de casa e também fui viver em Curitiba, ainda convivi com ele durante algum tempo. Pouco tempo, na verdade. Ela eu nunca mais vi pessoalmente. Muito depois, o Facebook nos devolveu uma possibilidade de contato, dessas que aproximam os nomes e deixam intacta a distância dos anos.
Hoje, os dois são conservadores, de direita. Ela se tornou mãe e tentou uma carreira política, sem sucesso. Ele assumiu sua orientação sexual como gay e depois desapareceu do meu convívio. Foi viver em outra capital, longe dos lugares onde nos conhecemos. No perfil do Facebook, ficou uma bandeira do Brasil com a inscrição: “Por uma Pátria sem corruptos”. Olho para aquilo e tento encontrar o rapaz da praça. Reconheço o nome, sei de quem se trata, mas alguma coisa naquela imagem já não me oferece passagem.
Ser mãe ou se assumir gay nada explica sobre esse percurso. Penso, sobretudo, na relação que estabeleceram com a liberdade que um dia representaram para mim. Me pergunto se ainda guardam alguma ternura pelos jovens que foram. Se os reconheceriam num banco de praça, hoje. Se teriam paciência com eles, com suas escolhas, com aquela maneira de afrontar o que a cidade considerava decente.
Tenho a impressão de que os esqueceram. Mas preciso admitir. Essa é a minha impressão, atravessada por algum sentimento que se aproxima da decepção. Não sei o que lembram quando estão sozinhos, nem como contam a própria juventude. Talvez eu tenha atribuído aos dois uma rebeldia maior do que a que sentiam. Talvez estivessem apenas vivendo, enquanto eu, de longe, fazia deles os meus heróis.
Eles provavelmente nunca souberam disso. Nunca souberam que o homem que me tornei carregou alguma coisa da imagem dos dois. Que aquele namoro, aquele banco, aquela moça que não escondia a própria experiência me ajudaram a imaginar uma vida. Na formação do artista que sou, existe também essa contribuição anônima de duas pessoas que talvez se espantassem ao saber do lugar que ocuparam.
Sinto alguma tristeza quando olho para eles agora. Ainda assim, agradeço. Aos quinze anos, eu precisava daqueles primeiros olhares, daqueles cacos em que uma imagem minha começava a aparecer. O tempo mudou os dois, mudou a mim e tornou mais difícil o nosso reconhecimento. Mas não desfez o que recebi naquela praça.
Nunca gostei de maconha. O que me fazia voltar os olhos para aquele banco era a possibilidade de um dia me sentar no mundo com um pouco menos de medo.
