BALANÇO | Satyrianas 2026: o que fica depois da chuva

Pela 27ª vez, realizamos as Satyrianas. Entre os dias 9 e 12 de outubro, reunimos 400 atrações em 15 espaços culturais, na Praça Roosevelt e em seu entorno. Vieram trabalhos de 15 estados brasileiros e também do exterior. Centenas de artistas e milhares de espectadores estiveram conosco, trazendo suas histórias, seus modos de criar e essa vontade de encontro que, a cada edição, dá ao festival uma vida que nenhum planejamento consegue antecipar por inteiro.

O tempo não ajudou muito. Disputamos a atenção com a chuva – e como choveu! Quem organiza um festival sabe o que isso significa: preocupação, mudanças de última hora, decisões tomadas depressa e um trabalho que o público nem sempre chega a conhecer. Ainda assim, as apresentações aconteceram com entusiasmo. Artistas, equipes e espectadores sustentaram juntos esses quatro dias, cada qual oferecendo alguma coisa para que o encontro fosse possível.

E havia gente, muita, muita gente. Um mar de gente que passou pela Roosevelt nesses quatro dias, ocupou as salas, acompanhou as apresentações e fez do festival um lugar de encontro. Mesmo com tanta chuva, milhares de pessoas escolheram estar ali, diante de uma cena, à espera de uma história, dispostas a se deixar surpreender. Para nós, que fazemos as Satyrianas, essa presença é profundamente comovente. Depois de tantos meses de trabalho, olhar ao redor e encontrar tanta gente é perceber que aquilo que imaginamos já pertence a muitos outros.

A programação permite reconhecer a dimensão do que construímos. Teatro, cinema, dança, música, circo, performance e literatura dividiram espaços e aproximaram públicos diferentes. O teatro marcou presença. No Cine Satyros Bijou, a programação incluiu a pré-estreia de O Enigma de Odradek, de Guilherme de Almeida Prado, e Universo Circular, sobre Jocy de Oliveira. Entre tantas linguagens, o festival abriu caminhos para que cada espectador encontrasse alguma coisa capaz de inquietá-lo, comovê-lo ou ampliar seu olhar.

Celebramos também os 20 anos do DramaMix, esse espaço onde a escrita encontra a voz, o corpo e a primeira escuta de uma plateia. A programação reuniu O Menino sem Espelho, com Carmo Dalla Vecchia, e O Chão, com Mel Lisboa, entre outras propostas. Existe algo precioso nessa possibilidade de compartilhar uma criação enquanto ela ainda procura sua forma: o público participa de um começo, e um começo pode guardar destinos que ninguém conhece ainda.

Com A Praça se Lembra, a memória também ganhou lugar na programação. Histórias de moradores, artistas e frequentadores foram propostas como matéria de criação e escuta. Gosto de pensar no que esse gesto representa numa cidade tão apressada: dedicar tempo à experiência de alguém, reconhecer que uma vida merece ser ouvida, permitir que uma lembrança pessoal encontre ressonância em outras pessoas. A praça guarda muito do que somos, inclusive aquilo que ainda não conseguimos contar.

A presença de artistas com deficiência e das programações SatyriBlack, SatyriTrans e SatyriNários ampliou esse encontro de perspectivas. Fazer um festival envolve escolhas sobre quem ocupa os espaços, quais histórias circulam e quem encontra condições para participar. As atividades gratuitas e o sistema “pague quanto puder” fazem parte desse compromisso: abrir as portas e trabalhar para que mais pessoas possam atravessá-las.

Brincando de Futuro, o tema desta edição, ganha agora outro sentido para mim. Depois de tantos trabalhos, encontros e imprevistos, penso no futuro como algo que também se aprende a fazer em companhia. Durante esses dias, artistas de diferentes territórios compartilharam a Roosevelt, e o público fez suas próprias descobertas entre uma apresentação e outra. Cada encontro acrescentou alguma coisa à história do festival e, talvez, à história de quem esteve ali.

Terminamos cansados e agradecidos. A quem veio de longe, a quem trabalha conosco, a quem acolheu os artistas, a quem enfrentou a chuva e a quem se sentou diante de uma cena disposto a escutar: muito obrigado.

Realizar as Satyrianas pela 27ª vez é reencontrar uma razão para continuar. Agora, enquanto desmontamos as estruturas e retomamos o cotidiano, algumas imagens permanecem conosco. A chuva passou; o que vivemos juntos ainda procura seu lugar na memória.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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