INOCÊNCIA

Antes de virar o corredor que dá acesso à porta de saída, algo caiu da mochila da garota. Um ursinho de pelúcia. Cor-de-rosa.

Ela tem 18 anos e nome de artista de cinema de Holywood. É de uma família muito pobre de Ibiúna. Caçula dentre onze irmãos. Tem uma irmã que já foi presidiária. Por sequestro.

Então, um dia, ela chegou em casa indicada por um amigo. Dezoito anos e um passado muito triste. Pai assassinado, família detonada e dona de uma mão abençoada para a cozinha. Foi assim que ela apareceu em casa, alegre e com um brilho indescritível no olhar.

Mas como tudo o que é bom dizem não durar uma eternidade, ficou conosco pouco mais de uma semana.

Tudo começou quando uma amiga que estava hospedada em casa viajou e deixou seu laptop. Ao retornar, descobriu que a nossa governanta tinha feito a maior festa em sua máquina. Além de mexer em seus arquivos, navegou pela Net, baixou músicas e imagens pornográficas e fez uma extensa pesquisa no Google com a palavra “buceta”.

O laptop da nossa amiga infestou-se de bucetas por tudo quanto é lado. Foi triste. Afinal não era um laptop qualquer. Era a ferramenta de uma escritora. De uma grande escritora.

Pior é que nossa governanta tinha invadido um outro portátil, o de um amigo que também se hospedara em casa. O resultado foi devastador. Vírus pra tudo quanto é lado e muitas imagens de bucetas também.

Com uma mochila enorme às costas bateu na porta do meu quarto querendo se despedir. Eu beijei seu rosto, apertei-a forte. Por dentro eu estava chorando.

Naquele abraço ali, peito com peito, eu senti que ela teria amado continuar vivendo conosco. Não só porque deve ser muito divertido dividir um apartamento com pessoas malucas como nós. Mas, e principalmente, porque a gente poderia ter mostrado um novo mundo à ela. Distante da miséria que enfrenta ao lado dos irmãos, longe das barbaridades desta periferia dura de São Paulo.

Não faltaram conversas. E foi isso que doeu mais. Vendo nossa ex-governanta se afastar, com sua mochila imensa nas costas, fui pensando que de alguma forma uma ingenuidade ia se perdendo ali.

Antes de virar o corredor que dá acesso à porta de saída, algo caiu da mochila da garota. Um ursinho de pelúcia. Cor-de-rosa. Alma e coração saltaram pela minha garganta. Com dificuldade fechei minha porta a chaves e tive que pensar na vida.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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