CURITIBA QUE EU VIA

Entrada da Quinta do Cabral, em Curitiba, um lugar muito, muito especial pra mim

I
Minha mãe tinha uma empregada que vinha trabalhar de carro.
Diariamente, a Rosa chegava em casa com o seu Gol bege.
Pontualmente, às oito da manhã.

II
Havia um piano na sala de casa.
Meu irmão Dimi, certa época, fez umas aulas particulares de piano.
Aprendeu a tocar duas músicas.
De uma delas, “Jingles Bells”, sabia tocar apenas a primeira parte.
E tocava esta primeira parte muitas vezes ao dia.
Toda vez que ele se sentava ao piano, minha mãe se posicionava numa poltrona ao lado.
Enquanto ele ia tocando, ela cantarolava.
Sempre ao final, minha mãe aplaudia.

III
Havia muitos pássaros na casa de minha mãe.
Um sabiá cantava o dia todo.
O Dimi começou a cevar as aves.
Colocava mamão, banana, maçã.
Um dia, apareceu por lá um tucano.
Lindo e imenso.
E um sanhaço também.
Lindo, azulíssimo.

IV
Também havia um pinheiro velhinho no jardim.
Eu o senti tristinho, certa vez.
E acho até que ele tinha lá seus motivos para tanta tristeza.
– É por causa do frio, o Dimi setenciou um dia.
Qual nada, pensei, pinheiros adoram frio, isso é só tristeza.
Durante anos minha mãe ameaçou o coitado.
– Um dia ainda chamo alguém para derrubá-lo, vivia dizendo.
Mas falar isso na frente do coitado?, pensava.
Um dia, pedi perdão ao pinheiro.
Mas como sabia que o Dimi também não ia lá muito com a cara dele, não pude prometer nada.
Depois disso ele foi ficando feio, bem feio mesmo.
Acho até que foi se suicidando lentamente.
Imagina só descobrir que não é amado.

V
Então um dia minha mãe se esqueceu.
Demorou pra se lembrar.
Depois ficou triste porque não se lembrou de mim.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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