Conheça terra indígena guarani sem sair de São Paulo

SelvaSP oferece várias opções de ecoturismo e aventura no extremo sul da capital paulista

Quando falamos de turismo de aventura, trilhas, rafting, tirolesa e atividades que tais na natureza, o primeiro nome que vem à cabeça é o de Brotas, no interior de São Paulo, um dos municípios pioneiros no país a explorar esse filão. Mas talvez o leitor não saiba que pode desfrutar um pouco do muito que a natureza tem a oferecer sem sair dos limites da capital paulista, logo ali, no distrito de Marsilac, franja do extremo sul da cidade.

Corredeira do rio Capivari dentro do parque SelvaSPCorredeira do rio Capivari dentro do parque SelvaSP – Alécio Cesar/Divulgação

É lá, a 56 quilômetros da praça da Sé, centro geográfico de São Paulo, que fica o parque SelvaSP, projeto do turismólogo Giuliano Prado, 38, que gosta de se definir como “neto e bisneto de carvoeiros e ferroviários que vieram para a construção da ferrovia Mairinque-Santos, inaugurada em 1940”. Desde então, a família sempre esteve na região e o gosto pela natureza preservada por lá o levou a trabalhar com ecoturismo pelo interior de São Paulo até resolver voltar e empreender por aqui mesmo.

O SelvaSP começou a ser estruturado em 2011 e, segundo Prado, ainda está com “uns 60% apenas completos”. Localizado em região das APAs (Áreas de Proteção Ambiental) Capivari Monos e Bororé Colônia, oferece o maior e mais conservado remanescente de Mata Atlântica da capital paulista. De quebra, vem o rio Capivari, considerado pela Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) como o mais limpo da cidade, por não cruzar áreas densamente povoadas.

Giuliano Prado, idealizador do parque SelvaSP, na zona sul de São PauloGiuliano Prado, idealizador do parque SelvaSP, na zona sul de São Paulo – Alécio Cesar/Divulgação

Com essa oferta toda de natureza, corredeiras e cachoeiras, o local é ideal para várias práticas como rafting, prancha, boia cross, mas também para ciclismo, tirolesa, arvorismo – e trilhas, claro.

A trilha mais curta, a Manacás, com 3 quilômetros circulares, é aconselhável para iniciantes e pode ser percorrida, em média, em 3 horas. Já a Quatro Cachoeiras, de nível intermediário de dificuldade, demanda em média 7 horas para percorrer seus 8 quilômetros.

Atenção: para todas as atividades é importante usar roupas que possam se molhar e levar uma muda de reserva para não voltar para casa pingando pelo caminho. Como em toda trilha que cruza matas, blusas de mangas longas são aconselháveis, bem como repelente, bonés e calçados fechados que protejam os pés e ofereçam mais tração no solo acidentado. Você estará em São Paulo, mas quase não se lembrará disso.

O acesso ao parque é pago e custa R$ 20 por pessoa (moradores da região, menores de 8 anos e maiores de 60 não pagam) e dá acesso à cachoeira Marsilac. Já as atividades que demandam acompanhamento de guias e técnicos são cobradas à parte em pacotes e valores diversos que podem ser conferidos no site.

Segundo Prado, o valor do ingresso é totalmente repassado aos guaranis mbyas, donos oficiais desde 2014 da Terra Indígena Tenonde Porã, que engloba a região. Os próprios indígenas guiavam visitantes pelas belezas de sua terra, mas desde o início da pandemia suspenderam as atividades, mantendo o acordo de parceria com o SelvaSP.

“Eles devem retomar esse trabalho no ano que vem, mas por enquanto somos os únicos autorizados por aqui”, conta Prado. “E isso é o que nos confirma que estamos certos no caminho de sustentabilidade e preservação da área”, acrescenta, explicando que os recursos para a gestão do parque vêm das parcerias com os serviços oferecidos e seus prestadores.

Quem confere as regras para visitação do parque no site percebe logo que as exigências são muitas. Lá não é permitido fumar fora de locais estabelecidos, acampar, fazer fogueiras, levar bebidas alcoólicas ou refrigerantes, comer dentro dos cursos de água ou suas imediações, jogar bola, colher plantas ou levar animais domésticos. A fauna e a flora locais agradecem.

O ator, autor e professor de teatro Ivam Cabral – Reprodução do Instagram

“Eu passaria muito mais tempo se pudesse ali”, conta o ator, autor, diretor e professor de teatro Ivam Cabral, que embora more e trabalhe na praça Roosevelt, no centro da capital, tem um sítio nas imediações do parque e costuma levar os amigos que o visitam ao local. “É um lugar muito incrível, onde eu me encontro, adoro caminhar no meio do mato”, completa, lamentando apenas que o acesso seja tão precário para quem pretende visitar o local sem veículo próprio.

“A gente precisaria ter um acesso ao local mais organizado, mas o poder público não chega até lá, é covarde na expansão dos serviços, não há muitas opções para promover a visitação”, avalia.

Com ele concordam o professor de História Caio Graco Santos Lobo, 31, e a artista plástica e tatuadora Paula Chimanovitch, 28, que decidiram sair do Butantã, onde moram, para visitar o parque no feriado de 21 de abril. A aventura começou quando ela pediu a seus seguidores do Instagram sugestões de passeios que pudessem ser feitos na cidade a pé ou de transporte público. Foi assim que descobriu a existência do SelvaSP. O próximo passo foi jogar o endereço no mapa: como chegar?

Paula Chimanovitch e Caio Graco Santos Lobo, no caminho para o parque SelvaSPPaula Chimanovitch e Caio Graco Santos Lobo, no caminho para o parque SelvaSP – Caio Graco Santos Lobo/Arquivo Pessoal

“Saindo do Butantã até o parque levamos quase quatro horas de metrô, trem da CPTM, ônibus e, no final, 5 quilômetros de estrada de terra feita a pé”, conta Paula, que enfrentou o percurso de ida e volta com o olhar de turista em sua própria cidade.

“Vi esse passeio como oportunidade de conhecer um pouco mais dessa cidade tão complexa em que eu vivo, ver como a paisagem vai mudando, deixando de ser urbanizada e virar área rural e ainda ser a mesma cidade, é uma experiência bem interessante,”, garante.

Prado informa que é possível contratar traslado do ponto que o visitante escolher no ato da compra dos bilhetes para as atividades pelo site. E, por ser trecho urbano, um carro por aplicativo também pode ser opção. Só que essa informação não está facilmente identificável nas páginas, o que poderia ser mais especificado para atrair mais que os 200 visitantes que vão até lá em média em um fim de semana, segundo ele.

De qualquer maneira, para quem gosta de caminhadas, como provavelmente é o caso do leitor que chegou até aqui, os 5 quilômetros de ida (e outros tantos de volta) não devem ser empecilho para conhecer esse santuário paulistano.

 

Fonte: Folha de São Paulo 

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