Como essa bicha cresceu!

Em 1981 eu tinha 18 anos e vivia em Ribeirão Claro, interior do Paraná, e frequentava o primeiro ano do curso de Administração de Empresas na Fundação Miguel Mofarrej em Ourinhos, interior de São Paulo, cerca de 35 quilômetros da minha cidade.

Nessa época eu já não era tão pobre. A minha família morava numa casa bem bonita, construída pelo meu pai, que era pedreiro, financiada pelo meu cunhado Edelcio, casado com minha irmã Irani.

Meus quatro irmãos que haviam saído de casa, nos ajudavam financeiramente. Nesta altura, vivíamos com nossos pais apenas eu e o Claudio, meu irmão caçula.

Tempos de descobertas e paixões, a diversão certa na cidade eram duas. A lanchonete da Gláucia, no alto da cidade, e o Stop, perto da igreja e o primeiro bar moderninho da minha cidade, estilo dancing, com luzes coloridas e boa música.

Eu fazia de tudo e mais um pouco para me enturmar com o povo mais descolado da cidade e, posso até dizer, me tornei popular nas rodas granfinas da cidade.

Então, a ronda era a seguinte. Havia, desde sempre, a missa das sete e meia, que terminava por volta das oito e meia, nove horas da noite, dependendo se era dia comum ou santo ou de festa. Depois da missa, o pessoal mais jovem primeiro subia na Glaucia, onde ficava até umas onze, onze e meia, e depois descia pro Stop, onde a noite poderia ir madrugada a fora.

O interior do Brasil é um vai e vem impressionante. Desde sempre, é muito comum o povo de um lugar viajar pra outra cidade próxima pra se divertir, estudar ou trabalhar. Então teve uma época que era uma doideira, os meninos das cidades vizinhas à nossa começaram a aparecer em peso em Ribeirão Claro, principalmente os de Jacarezinho, cerca de 25 quilômetros de distância.

A Dorisdei era uma menina muito bonita e nós tínhamos a mesma idade. Tínhamos estudado juntos no ensino fundamental e médio, frequentava a casa dela, era amigo de seus irmãos e nossos pais eram compadres. Foi ela quem me apresentou uma canção que adoro até hoje, “Torturas de Amor”, do Waldick Soriano; que, descobri depois, a minha doce Patricia Pillar também adora.

Então, vou contar agora como ouvi pela primeira vez esta música que me faz chorar toda vez que a escuto.

A Dorisdei se apaixonou pelo Mi, um moço de Jacarezinho, que estava sempre bebendo em alguma mesinha do Stop, e parece que os dois tiveram lá um rolinho, mas que não deu muito certo.

Então, naquela noite, o moço de Jacarezinho estava por ali, no Stop, e a Dorisdei acho que tinha bebido um pouco a mais e começou a cantar “Torturas de Amor” sem parar, muito alto, enquanto ria, entre uma estrofe e outra, substituindo por MI o TI da canção:

“Hoje que a noite está calma
E que minh’alma esperava por MI
Apareceste afinal torturando este ser que te adora…”

O Stop ficava em um sobrado. Embaixo, um bar com mesinhas e luz comum; e, em cima, um ambiente mais descolado com um globo e luzes piscantes. Entre os dois, uma escada um tanto íngreme. Nesta noite, me lembro como se fosse hoje, eu estava encostado na parede da parte de baixo do bar, ao lado da escada, bebendo sozinho, enquanto a Dorisdei e algumas amigas subiam e desciam aquela escada, cantando “Torturas de Amor” e rindo. Numa dessas vezes, enquanto passava por mim, olhou nos meus olhos e gritou:

— Como essa bicha cresceu!, e riu, juntamente com as amigas e o povo do bar que não teve como não assistir à cena.

Neste momento, neste exato momento, involuntariamente, meu corpo se estremeceu todo e, morrendo de vergonha, eu fiz xixi nas calças. Acho que ninguém percebeu, não sei, porque eu não consegui sair da posição em que estava por algumas horas, enquanto a Dorisdei e suas amigas continuavam a passar por mim o tempo todo gritando:

— Como essa bicha cresceu!, enquanto todos riam e se divertiam com a cena.

Então foi assim que, durante um tempo – pequeno, na verdade, porque meses depois deste episódio eu me mudaria pra Curitiba – algumas pessoas da cidade insistiam em me chamar de “comoessabichacresceu”.

Daí, o tempo passou, e uns bons anos depois, eu fico sabendo que a Dorisdei havia ficado noiva, por muitos e muitos anos, de um jovem médico, e que o rapaz terminou o noivado com ela uns meses antes do casamento, porque se apaixonou por um outro rapaz. Ainda soube, recentemente, que a moça nunca superou este acontecimento e que nunca mais namorou ninguém, nunca mais bebeu, nem se divertiu, nem saiu de casa.

Não, não tenho nenhum sentimento ruim com a Dorisdei. Até porque sei que o que aconteceu naquela noite de adolescência, num tempo perdido no passado, ficou lá no passado. A maior consequência dessa história é que toda vez que eu ouço “Torturas de Amor” eu me lembro dela, me dá um aperto no coração e eu tenho vontade de chorar. Porque, naquela noite, grudado na parede, com medo que vissem minha calça toda encharcada de urina, tudo o que eu não pude fazer foi chorar, e aquele choro ficou preso até hoje…

 

 

* na foto, em destaque, Morro do Gavião, atração turística de Ribeirão Claro (TripAdvisor)

** “Torturas de Amor”, de Waldick Soriano, composta em 1962, é um clássico da música brasileira, foi gravada incontáveis vezes por artistas como Dalva de Oliveira, Nelson Gonçalves, Claudia Barroso, Eliana de Lima, Agnaldo Timóteo e Fafá de Belém, entre outros. Aqui, o registro mais bonito da canção, com Maria Creuza, Toquinho e Vinicius de Moraes, do álbum “Eu Sei Que Vou Te Amar”, de 1972:

 

 

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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