COMO CONHECI O PAULO AUTRAN

Minha mãe usava uma expressão que eu adoro: feiudinho. Se aplicava a pessoas feias, porém, com algum charme. Um feio que era sedutor ou um feio simpático pra ela era um feiudinho. Apesar de ninguém ter dito nada pra mim, foi assim que eu cresci, me achando um feiudinho.

Então, quando eu estudava Artes Cênicas em Curitiba, nos anos 80, montei, ao lado do Darson Ribeiro, um grupo de teatro chamado Boca Maldita. Era um coletivo de pessoas, digamos assim, bem interessantes. Além de mim e do Darson, faziam parte deste grupo mais cinco atores: Adônis Rique, Denise Baracat, Simone Klein, Rosane Egídio e João Luiz Romanini.

Na mesma época, Marina Machado – uma atriz já veterana e que brilhava na cena curitibana – e Cleon Jacques – que começava a despontar no cenário teatral da cidade – fundaram um grupo, o Máscaras. E surgiram fazendo algum barulho. Já no primeiro espetáculo, “Máscaras”, do Menotti Del Picchia, causaram alvoroço, arrebatando todos os prêmios daquele ano.

Mas eles tinham um ideário. Para participar do grupo – se orgulhavam disso –, os atores tinham que ser bonitos. E modernos também, na mesma proporção.

Um dia, o Boca Maldita está na sala de trabalho ensaiando uma peça e a Marina e o Cleon batem à porta. Como eles eram infinitamente mais talentosos, mais famosos, mais bonitos e mais modernos, o grupo tremeu com tão nobre visita. É Marina quem se pronuncia primeiro:

– Então, como vocês sabem, a próxima montagem do Máscaras será “O Pequeno Princípe” e a gente veio aqui para convidar o Darson, a Denise, a Simone, o Adônis, a Rosane e o João Luiz pra trabalharem com a gente.

Imediatamente os atores do meu grupo ficaram eufóricos.

– E eu?, pensei, quase num soluço, mas jamais com intenção de abrir a boca.

– Queremos que o Máscaras seja o grupo mais lindo do teatro brasileiro. Só com pessoas talentosas, modernas e muito bonitas, concluiu Marina.

Chorei por dentro. Mas me lembrei de minha mãe e de sua definição para feiudice e resolvi sofrer sozinho.

Os dias que se sucederam foram intermináveis. Para comemorar a entrada dos novos atores no seu grupo, Marina organizou um jantar em seu apartamento negro. Sim, Marina, que só se vestia de preto, era excêntrica. Vivia apenas com a mãe octagenária, que também andava sempre de negro, em um apartamento ao lado do Teatro Guaíra, onde tudo era negro – das paredes aos móveis, das toalhas de banho às colchas da cama, também negra.

Quer dizer, tudo isso foi o que me contaram porque, feiudinho que era, jamais frequentei o apartamento negro da Marina que era – nossa, como podia me esquecer disso – ruiva!

Mas aí apareceu em Curitiba o Paulo Autran que estava em turnê com “Tartufo”, de Molière, dirigido pelo José Possi Neto. Então, na noite de estreia do espetáculo, lá estava eu, feiudinho, peixinho totalmente fora do aquário, e o pessoal lindo do Máscaras com os ex-integrantes igualmente lindos do Boca Maldita. Todos ali estavam vestidos de preto e super maquiados, inclusive alguns dos meninos.

Terminada a sessão, um alvoroço para abraçar o Paulo no camarim. Empurra daqui, empurra dali, Paulo, gentil como sempre, pede um tempo e diz que está um pouco cansado e que precisa de uns minutos de tranquilidade em seu camarim. Antes, porém, olha pra todos nós, aponta o dedo para mim, que estava bem no final da muvuca mesmo, e me chama:

– Vem aqui comigo.

O Paulo vira as costas enquanto os olhares das pessoas lindas se voltam para mim, surpresos. Estou rubro e, totalmente sem jeito, me dirijo ao camarim do Paulo, que tranca a porta a chaves.

Estou trêmulo, constrangido e sem saber muito bem o que fazer. Paulo me pede pra sentar e pergunta meu nome. Enquanto respondo, ele acende um cigarro.

– Fica tranquilo, se acalme.

Me oferece um de seus cigarros que eu aceito muito constrangido mesmo.

– Vamos ficar aqui um tempo. É só pra eles ficarem com inveja de você.

E riu.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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