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Antonia veio me visitar em Portugal e eu não estou ficando louco

Antonia tinha fixação nos meus óculos. Eu não podia deixá-los em qualquer lugar em casa porque, sabia, seriam mordidos por ela.

Eu e Joaquim estamos hospedados em um apartamento muito simpático, escolhido no Airbnb, no segundo andar de um prédio, no elegante bairro da Boavista, aqui no Porto.

Já tinha ouvido antes, mas me esforcei para pensar que era bobagem porque, se levasse mesmo a sério, poderiam pensar que eu estava ficando lelé. 

É que, desde que chegamos aqui, comecei a ouvir uns rosnados pela casa. E a sensação de que existia um gato entre nós. Algo completamente fora de questão porque o amplo apartamento, além de ser realmente muito espaçoso, com poucos – mas elegantes – móveis, não podia abrigar um animal ali. Nenhum sinal no apartamento que indicasse qualquer possibilidade neste sentido.

Mas esta noite, acordei no meio da madrugada meio assustado, tendo certeza, absoluta mesmo, de que a Antonia estava por ali. E, sim, ouvindo uns rosnados pequeninos, mas muito reais.

Levantei da cama com os pelos arrepiados, num misto de medo e espanto. O que estaria acontecendo, Jesus Cristinho amado? Fui até o banheiro e desabei. Chorei mesmo! Mas antes de voltar ao quarto, fui até a sala, onde existe uma porta de vidro enorme para uma sacada; abri a porta, rezei pela Antonia, pedi paz para a sua pobre alma e me convenci de que estava realmente ficando louquinho, louquinho. E também senti medo por isso, imagina eu ficando louco em Portugal, ouvindo rosnados de uma gata que morreu em São Paulo? Resolvi deixar a porta aberta para que, se presa na minha tristeza naquela casa, Antonia pudesse encontrar tranquilidade numa possível saída para as estrelas. Sim, pensei nisso. E prometi a mim mesmo: jamais contaria esta história para ninguém.

Voltei para o meu quarto, demorei mais um tempo, chorei mais um pouquinho, mas acabei dormindo. 

Acordei hoje cedo e fui arrumar as minhas malas. De repente, vejo que a haste esquerda dos meus óculos, que estão na cabeceira da minha cama, está roída. Exatamente como Antonia fazia. Fico desesperado. Desesperado mesmo. Não sei mais o que pensar, estou ficando louco, claro, só pode.

Saio em direção à sala, o Joaquim está por ali. Morrendo de medo de ser, enfim, tachado de louco, conto a ele o que está acontecendo. Mostro-lhe  os óculos e tudo parece ser muito esquisito. Conto-lhe que estive na sacada, na madugada, abro o enorme vidro e todo o mistério, enfim, é solucionado. O bichano mais lindo do mundo está a olhar para nós, no pátio interno do edifício, no primeiro andar. Sim, convivemos estes dias todos com um mocinho (ou mocinha, quem saberá?) mais lindo do mundo.  Enfim, respiro aliviado. Não estou lelé da cuca. E meu coração, é ternura por inteiro.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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