Tapinha, o menino bóia-fria que usava luvas brancas

Fartura é uma pequenina cidade do interior paulista. Fica no sudoeste do estado, na divisa com o Paraná, a poucos quilômetros da minha Ribeirão Claro. Nos anos 1970, havia ali uma figura muito popular, o Tapinha. E sua história era contada por todos, em todos os lugares, incansáveis vezes.

Tapinha tinha cerca de 18 anos e vivia com a família na zona rural da cidade. Eram bóias-frias, colonos de uma grande fazenda. Colhiam cana-de-açúcar no verão, café no outono, arroz no inverno e feijão na primavera.

O menino Tapinha era afeminado e ficou conhecido por todos por possuir a bunda mais linda da região. Vaidoso, usava umas luvas brancas, que ficavam sempre encardidas quando estava na colheita.

— Pra não perder a delicadeza das mãos, defendia-se.

Os homens da cidade o adoravam, na mesma proporção que o odiavam. Porque Tapinha despertava neles uma estranha sensação de desejo e asco. Mas nas festas populares da cidade, que aconteciam com muita frequência, Tapinha era assediado e disputado por todos. E se divertia com eles, ah, como se divertia!

O Loro, filho dos patrões de Tapinha, era noivo e estava para se casar dali a alguns meses quando, na festa da padroeira, Nossa Senhora das Dores, cismou porque cismou que naquela noite ia comer a bunda do Tapinha.

Mas o menino das luvas brancas não deu a mínima pras investidas nada discretas do Loro. Estava apaixonado pelo Melão, o servente de pedreiro, afilhado de seu pai e, justamente naquele dia, tinham combinado que iriam juntos dar uma volta na roda-gigante. E Tapinha, depois de muita putaria e desilusões, romântico que só, havia prometido fidelidade ao amado.

Loro ficou intrigado. Tapinha tinha dado pra todo mundo. Por que pra ele não? Foi bebendo e bebendo e quanto mais bebia, mais pensava na bunda do Tapinha. Então, foi ficando excitado. Mas tão excitado que suas bolas começaram a doer.

Lá pelas 11 da noite, Loro foi deixar sua noiva em casa e voltou à festa que estava pra lá de animada. Viu o Tapinha na roda-gigante com o Melão e sentiu um aperto no peito parecido com ciúme. E sentiu nojo de si mesmo. Enquanto bebia com uns amigos na barraquinha da dona Zilú, no alto-falante do coreto tocava uma música do Fernando Mendes:

Não adianta ir a igreja rezar e
Fazer tudo errado
Você quer a frente das coisas
Olhando de lado
O céu que te cobre não cobra a
Luz da manhã
Desperte pra vida, acredite,
A sorte é irmã…

Quando Tapinha e Melão desceram da roda-gigante, Loro ainda tentou uma última aproximação. Mas Tapinha, apaixonado, estava mais preocupado em comer uma maçã do amor enquanto Melão saía na surdina. Esperaria por Tapinha no cafezal da serraria, lá pelas bandas do Grupo Escolar.

Na roda de moços, na barraca da dona Zilú, todos já tinham comido alguma vez a bunda do Tapinha. E estavam justamente falando sobre a delícia das carnes do menino bóia-fria que usava luvas brancas quando o Loro, que não aguentava mais as dores em suas bolas e, principalmente, o aperto no peito, tirou o revólver da algibeira e anunciou:

— Vou tirar o chapéu desse mariquinhas.

Tapinha usava um elegante chapéu de cowboy branco, presente do amigo Melão. Estava com a maçã do amor entre os dentes quando Loro disparou. O tiro pegou bem na testa do menino que rodopiou pelos ares enquanto seus miolos saltaram todos para fora.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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