Quem pede escuta

Há uma estranha vocação humana para acreditar que o mundo cabe em lados. Como se toda conversa precisasse escolher um vencedor. Como se toda luta precisasse produzir um novo centro.

Mas a vida nunca funcionou assim.

Aprendemos, ainda que lentamente, que o mundo não é binário. Entre uma margem e outra existe um território quase infinito, povoado por ambiguidades, contradições, encontros e travessias. É justamente ali que a experiência humana respira.

As lutas por reconhecimento contribuíram para ampliar esse espaço. Para permitir que mais pessoas existissem com dignidade. Não para substituir uma hierarquia por outra.

Talvez por isso eu me detenha tanto numa palavra que parece tão bonita: escuta.

Vivemos dizendo que falta escuta. E falta mesmo. Mas existe um detalhe curioso. Quase sempre quem reivindica ser ouvido deseja, antes de tudo, falar. Poucos pedem escuta para também escutar. É uma diferença sutil, mas decisiva.

Toda reivindicação produz, inevitavelmente, uma disputa pela definição de quem poderá narrar a realidade. O problema começa quando a narrativa passa a valer mais do que a transformação que lhe deu origem.

Muitas vezes, em vez de pedir a palavra, pede-se a escuta. Há uma lógica política nisso que merece atenção. Parece generoso. Parece ético. Mas, não raro, trata-se apenas de inverter o fluxo da autoridade. Quem passa a ocupar o lugar da escuta também passa a influenciar a narrativa. E toda narrativa produz, inevitavelmente, inclusões e exclusões, definindo quem encontra voz e quem continua sendo silenciado.

Não é um fenômeno exclusivo das disputas identitárias. O capitalismo compreendeu isso há muito tempo. Ele transforma necessidades em mercados, diferenças em produtos, causas em capital simbólico. Até o sofrimento pode se converter em moeda. Até o direito pode virar prestígio.

Toda luta por justiça corre o risco, em algum momento, de ser capturada pela disputa por centralidade. Quando isso acontece, o reconhecimento passa a valer mais do que o encontro. Quando a identidade deixa de ser um lugar de encontro para tornar-se um lugar de poder.

No Brasil, esse desafio ganha outra camada. Somos um país atravessado por ancestralidades que não cabem em genealogias simples. Somos indígenas, africanos, europeus, asiáticos. Somos migrações, apagamentos, violências, mestiçagens e reinvenções. Qualquer tentativa de organizar essa história em compartimentos perfeitamente definidos corre o risco de produzir novas exclusões.

Talvez seja por isso que eu desconfie das respostas rápidas.

Nem toda pergunta precisa ser resolvida imediatamente. Algumas precisam amadurecer dentro da sociedade. Outras exigem tempo para que a própria realidade revele aquilo que os discursos ainda não conseguem enxergar.

A justiça exige ação. Mas é o tempo que costuma mostrar quais lutas ampliaram o mundo e quais apenas trocaram de lugar o poder.

Enquanto isso, talvez nos caiba um exercício mais difícil do que falar. Escutar sem transformar a escuta numa estratégia de conquista. Falar sem desejar o monopólio da verdade. Defender direitos sem convertê-los em novos tronos.

Escutar, afinal, nunca foi apenas abrir espaço para uma voz. É aceitar que ela também transforme a nossa.

Porque nenhuma emancipação será completa se, para existir, precisar fabricar um novo silêncio.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
Post criado 2097

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo