Os meninos sem espelho

Vivemos um tempo em que parece existir uma estranha pressa em reorganizar as identidades, como se a história pudesse ser reescrita por conveniência. Como se algumas lutas envelhecessem antes mesmo de conquistar plenamente o direito de existir. Nesse movimento, às vezes, tenho a impressão de que os homossexuais vão sendo discretamente empurrados para a margem, como se a batalha estivesse vencida. Não está.

É importante lembrar que muitas pessoas que hoje vivem outras identidades de gênero atravessaram, antes de tudo, a experiência de serem lidas pelo mundo como homossexuais. Foram chamadas de “bichas” e sofreram a violência destinada aos meninos afeminados. Conheceram a humilhação antes mesmo de encontrarem palavras para nomear quem eram. As histórias não competem entre si. Elas se entrelaçam. Nenhuma delas deveria ser apagada para que outra pudesse existir.

Enquanto discutimos conceitos, há uma realidade que continua brutal. Dos 193 países reconhecidos pela ONU, 65 ainda criminalizam a homossexualidade. Em alguns deles, amar alguém do mesmo sexo pode significar prisão. Em outros, a morte. A geografia dos direitos continua profundamente desigual.

Mas há uma violência que antecede a lei. Ela acontece dentro de casa, na escola, na igreja, no recreio. O menino homossexual costuma crescer antes de encontrar palavras para si. Cresce percebendo que existe algo nele que incomoda os outros, mesmo sem compreender exatamente o quê. Aprende muito cedo a vigiar a voz, o jeito de andar, as mãos, o olhar. Aprende a ocupar menos espaço. Aprende o silêncio como estratégia de sobrevivência.

Há crianças que descobrem o mundo porque são acolhidas. Outras descobrem porque precisam se defender dele.

Talvez uma das maiores solidões da experiência homossexual seja justamente a ausência de espelhos. Muitos homossexuais crescem sem encontrar, dentro da própria família, alguém que compartilhe sua experiência afetiva e possa nomear aquilo que vivem. Diferentemente de outras formas de pertencimento, a homossexualidade raramente é transmitida entre gerações. Na maioria das vezes, o menino homossexual nasce em uma família heterossexual que também foi educada para acreditar que a heterossexualidade é a única possibilidade. Não herda narrativas sobre si. Não recebe mapas. Precisa inventar o caminho enquanto ainda aprende a sobreviver. Cresce tentando esconder justamente de quem mais ama aquilo que mais precisa ser visto.

É uma infância feita de perguntas sem interlocutores. E lágrimas, muitas.

Por isso, quando um homossexual adulto caminha de mãos dadas com quem ama, quando ocupa um cargo público, quando ensina, cria, escreve, canta ou simplesmente existe sem pedir desculpas, há muito mais acontecendo do que parece. Naquele gesto continua vivendo uma criança inteira. Uma criança que um dia acreditou que jamais teria futuro.

Nenhum direito conquistado nasceu sem dor. Nenhuma liberdade veio de presente. Cada pequena possibilidade de viver sem medo foi construída sobre décadas de insultos, expulsões, terapias de conversão, espancamentos, mortes e silêncios.

Talvez seja isso que nunca deveríamos esquecer.

A luta por reconhecimento não precisa apagar ninguém para iluminar outra pessoa. A dignidade não é um recurso escasso. Ela cresce justamente quando aprendemos que as histórias se sustentam umas às outras.

Porque ainda existem muitos meninos crescendo sem espelhos.

E nenhum deles deveria precisar esperar a vida inteira para descobrir que nunca houve nada de errado com ele.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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