Quase Todos Nós

Voltar ao palco é sempre uma espécie de retorno ao próprio corpo. Como se o tempo, que a gente imagina linear, de repente abrisse um pequeno atalho e nos colocasse novamente diante daquele primeiro impulso que nos fez subir a um palco pela primeira vez.

Um retorno que nunca é completo. A gente sempre volta um pouco diferente. Ou talvez um pouco menos inteiro.

Estou voltando como ator depois de quase cinco anos afastado. Cinco anos é muito tempo para um ator. Tempo suficiente para que o palco comece a parecer uma lembrança, ou uma casa onde já não sabemos exatamente onde ficam as chaves.

Se não fosse a insistência do Rodolfo – e quem o conhece sabe que certas insistências dele têm algo de destino – talvez eu tivesse me aposentado discretamente deste ofício de ator. Permaneceria na dramaturgia, na produção, nas mil outras frentes que a vida inventou para mim. Continuaria dentro do teatro, mas apenas pelas margens.

Existem muitos motivos para esse afastamento. O primeiro talvez seja algo que pouca gente percebe: a dificuldade de ser ator no cotidiano. O palco não é apenas o momento do aplauso. Ele é repetição, disciplina, insistência quase teimosa. Especialmente no Satyros, onde os espetáculos não passam como nuvens rápidas. Eles permanecem. Ficam. Criam raízes. Faça chuva, faça lua, lá estamos. Noite após noite.

Há peças nossas que parecem ter atravessado décadas respirando dentro do mesmo espaço. Raramente abandonamos um espetáculo antes de cem apresentações. Cem já é quase uma infância inteira. “A Filosofia na Alcova” ultrapassou mil sessões. “Pessoas Perfeitas” e “Os 120 Dias de Sodoma” passaram das quinhentas. Às vezes penso que certas peças não terminam.Apenas mudam de estado, como a água. Continuam ali, invisíveis, habitando as paredes do teatro.

O segundo motivo é mais íntimo. Talvez eu nunca tenha conseguido ser exatamente o ator que imaginei quando tinha vinte e poucos anos, quando comecei minha trajetória no teatro. Existe sempre um pequeno descompasso entre o ator que sonhamos ser e o ator que a vida nos permite construir. Eu precisava cuidar dos outros, produzir, buscar saídas. Então, ficou um quase. E a vida, curiosamente, parece mesmo ser feita desses quase.

Quarenta anos de palco não resolvem completamente esse mistério. Na verdade, talvez o aprofundem.

Mas então apareceu este novo projeto. Um texto escrito por mim e pelo Rodolfo. E algo dentro de mim sussurrou – ou talvez tenha sido apenas um pequeno empurrão – que eu deveria me dar mais uma chance.

O curioso é que isso aconteceu justamente no momento em que eu menos tinha tempo. Minha vida hoje parece uma estação de trem em horário de pico: projetos, aulas, consultório, textos, encontros, decisões. Tudo passando ao mesmo tempo, em direções diferentes. E ainda assim, de repente, lá estava eu novamente.

No palco. Ensaiando. Decorando falas. Errando. Recomeçando.

Acreditando. Quase como se fosse a primeira vez.

Existe algo de vertiginoso nisso. O teatro sempre pede um salto sem rede de proteção. A gente ensaia, prepara, constrói. Mas, no fundo, cada noite continua sendo um salto. Sempre único. Sempre um pouco incerto.

E talvez exista uma pequena consciência silenciosa dentro de mim: pode ser o último. Não no sentido dramático da palavra, mas no sentido simples do tempo. O teatro nos ensina isso com delicadeza brutal. Tudo é provisório. Inclusive nós mesmos.

Mas estou feliz. É um trabalho bonito. Honesto. Vivo.

Curiosamente, talvez seja também a peça mais triste que já fizemos na história dos Satyros. Uma tristeza profunda, mas dessas que iluminam alguma coisa dentro da gente. Como se a melancolia fosse uma pequena lanterna.

Eu faço o Lírio, um dos quatro irmãos que contam essa história. Quatro vozes tentando reorganizar os pedaços de uma família. Porque toda família é, no fundo, um pequeno arquivo de memórias, afetos, silêncios e mal-entendidos.

E o teatro, como sempre, tenta fazer aquilo que ele sabe fazer melhor. Reunir pessoas numa sala escura para que, por algumas horas, possamos olhar juntos para aquilo que nos constitui.

No fundo, talvez seja apenas isso. Uma peça sobre famílias. E sobre o estranho e belo esforço de continuarmos pertencendo a elas. Mesmo quando o tempo insiste em nos espalhar pelo mundo.

Uma peça sobre memórias. Sobre ausências. Sobre este momento que atravesso. Sobre quase todos nós.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
Post criado 2046

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo