O que a gente não faz por amor…

Chegou na minha vida em junho de 2012. Muitas coisas importantes estavam acontecendo comigo naquele momento. Havia descoberto um tumor no cérebro e perdido minha visão direita. Eu não sei ao certo por onde eu andava. Sei que estava bastante perdido. Porque foi, talvez, a época que eu mais trabalhei na minha vida. A SP Escola de Teatro estava sendo estruturada e eu trabalhava doze horas diárias. 

No Satyros, tínhamos voltado de viagens incríveis da Suécia e viajaríamos para Cabo Verde, naquele período. Nosso espetáculo, Cabaret Stravaganza, fazia enorme sucesso e preparávamos a estreia de Inferno na Paisagem Belga, outro trabalho incrível que realizamos nesta época. Cacilda já habitava nossa vida e o Chico chegaria ao nosso mundo por aqueles tempos. Mas havia em mim um coração vazio. 

Não fui um bom tutor para a infância de Antonia. Não brinquei com ela, não passamos muito tempo juntos. Teve um porquê. Antonia sempre detestou cigarro. E, naquela época, eu fumava muito. Fumava no meu quarto, na minha cama, na casa toda. Com isso, ela ia se afastando de mim toda vez que eu acendia um cigarro. No meu quarto, ela não entrava nunca. 

Por outro lado, Antonia sempre teve uma ligação muito forte comigo. Temos histórias inacreditáveis, um dia conto algumas delas. Mas antes de parar de fumar definitivamente, em algum momento, eu entendi que deveria tê-la ao meu lado. Então, para isso, decidi não fumar mais no meu quarto. E foi lindo. Imediatamente lá estava ela, se apossando de tudo por ali. 

Foi nessa época que ela, a gata mais doce do mundo, se tornou agressiva com os outros pets de casa, especialmente com os cães. Antonia exigia o tempo dela comigo. Só comigo. Nestas ocasiões, nenhum outro bicho chegava perto de nós, e eles começaram a respeitá-la como a líder absoluta daquele lugar.  

Voltemos ao tempo. No final de 2012, quando Antonia tinha cerca de 10 meses, desenvolveu uma doença autoimune, uma espécie de anemia, seu organismo produzia e matava as células vermelhas, precisando de transfusão de sangue. Foram muitas, que ocorriam de ano em ano, normalmente às vésperas do Natal. E, durante o resto do ano, Antonia sobrevivia tomando muita cortisona, que resultou agora numa diabetes, com alterações no fígado e inflamação no pâncreas.

Não se tem muito o que fazer. Anemia não combina com diabetes. Porque para manter seu hematócrito nos índices normais, Antonia precisa de cortisona, que maltrata o fígado e destrói o pâncreas. 

Enquanto escrevo, aguardo o horário para ser atendido aqui, no hospital veterinário. Mas chegará o momento, pressinto, que terei que decidir entre o amor e o egoísmo, tão presentes, tão a mesma coisa. Mas já tenho decidido aqui, no coração. Se realmente não conseguirmos sair deste horror, abraçarei seu corpinho, enlaçarei seu amor e deixarei que ela se vá. Sem dor, sem sofrimento. Até a eternidade…

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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