Na quarta-feira, participei de um encontro especial, organizado por Marilia Marton. Por algumas horas, o mundo deixou de ser organizado por protocolos e passou a ser conduzido por aquilo que nos move. A curiosidade, o desejo de troca, uma certa esperança. Tinha tudo para ser um desses encontros institucionais, protocolares. Mas não.
Conheço Marilia Marton há muitos anos. Desde um tempo em que a cidade ainda era outra. Vi de perto sua travessia, seu modo de estar nos processos, sua capacidade rara de não abandonar as ideias quando elas ainda são frágeis. E talvez por isso não tenha sido apenas uma “grata surpresa” vê-la chegar à frente da Secretaria da Cultura, Economia e Indústrias Criativas do Estado de São Paulo. Foi também uma espécie de confirmação. Como se certas trajetórias, quando olhadas com atenção, já anunciassem o que estava por vir.
Há algo de profundamente simbólico no fato de que, sob sua gestão, a SP Escola de Teatro tenha finalmente alcançado o reconhecimento como curso superior. Não é apenas um avanço institucional. É uma afirmação de que a arte pode, sim, sustentar estruturas duradouras sem perder sua pulsação.
Mas não era exatamente disso que eu queria falar hoje. Ou, ao menos, não apenas. Queria falar do encontro. Um almoço, na verdade. Porque, às vezes, é à mesa que as coisas realmente acontecem.
O encontro, que já se torna uma pequena tradição, reuniu representantes de diferentes países em torno da cultura produzida aqui, nesse território que insiste em se reinventar. Havia algo de discretamente extraordinário naquela cena: cônsules de tantos lugares, sentados diante de pratos que carregam histórias, modos de fazer, geografias afetivas.
O almoço, preparado a partir do espírito do Revelando São Paulo, era mais do que saboroso. Era narrativo. Cada prato parecia dizer: “é assim que vivemos”, “é assim que lembramos”. E, naquele gesto aparentemente simples de servir comida, havia uma política sutil, mas potente. A de apresentar o estado não como abstração administrativa, mas como experiência sensível.
Me sente à mesa com Stela Maria da Graça Santana e Sousa Santiago, cônsul de Angola em São Paulo, e com Aleksei Blinov, cônsul adjunto da Rússia. E ali, entre uma conversa e outra, fui percebendo como a cultura tem essa capacidade quase silenciosa de reorganizar distâncias. Não se tratava de grandes discursos, nem de negociações formais. Era algo mais delicado. Um reconhecimento mútuo que se dá no detalhe, no interesse genuíno pelo outro, na escuta.
Talvez seja isso que mais me impressione nesses encontros. A forma como, por algumas horas, o mundo parece caber numa mesa. E não porque ele se simplifica. Mas porque se complexifica junto, sem hierarquia, sem pressa de conclusão.
No fim, fui entendendo que aquele encontro não era apenas um gesto de hospitalidade. Era também uma estratégia. Sensível. Uma forma que Marilia Marton encontrou de tornar visível, ao mundo, a cultura produzida no estado de São Paulo. De colocá-la em circulação. De permitir que ela fosse vista, escutada, atravessada por outros olhares. E, a partir daí, tecer algo que não se anuncia de imediato, mas que começa ali, silenciosamente.
Saí de lá com a sensação de que, sim, ainda é possível. Ainda é possível reunir, ainda é possível conversar, ainda é possível imaginar que a cultura, essa palavra tantas vezes desgastada, continue sendo um lugar de encontro.
E, no fundo, talvez seja isso que sustente tudo o mais. Uma mesa. Pessoas. E a disposição, sempre rara, de permanecer.
