É profundamente perturbador – e necessário – o que “Nós, os Justos”, em cartaz no Teatro Itália, produz. Talvez porque a peça não se contente em falar do nosso tempo. Ela nos coloca dentro dele. E, mais do que isso, nos compromete.
Escrita e dirigida por Kiko Rieser, a obra parte de um dispositivo aparentemente simples, um rumor de assédio dentro de uma empresa, para revelar o mecanismo perverso daquilo que convencionamos chamar de cultura do cancelamento. Mas Rieser não faz um teatro de tese. Seu maior acerto está justamente em recusar o panfleto e construir uma dramaturgia que se sustenta na ambiguidade, na dúvida, no atrito entre versões.
O que está em cena não é apenas um caso. É um sistema. Um tribunal difuso, sem rosto, onde todos julgam e ninguém escuta. E onde a verdade – essa palavra tão desgastada em nossos tempos – se dissolve em narrativas em conflito.
A encenação acompanha essa lógica com inteligência. Ao transformar o palco em um espaço de julgamento permanente, Rieser acerta ao tensionar o tempo da cena, mantendo o espectador em estado de vigilância – como se também estivéssemos sendo observados, avaliados, incluídos nesse jogo de acusações silenciosas. Existe, aqui, um diretor que entende que forma e conteúdo não são dimensões separadas.
O elenco, por sua vez, sustenta esse edifício com precisão rara. Não há concessões fáceis, nem personagens reduzidos a funções dramáticas simplificadas. Cada ator trabalha na zona cinzenta, esse lugar incômodo onde ninguém é inteiramente vítima ou algoz. E isso exige rigor.
Nesse sentido, é preciso destacar o trabalho da atriz Natália Moço, que assumiu o papel na sessão de sexta-feira, 17 de abril. Sua presença não apenas preserva a densidade da personagem como a reinscreve em outra chave: há nela uma contenção que desloca o eixo da cena, fazendo com que o silêncio pese tanto quanto a palavra. Não se trata de substituir, mas de reconfigurar. E isso é trabalho de atriz madura.
O restante do elenco – Marco Antonio Pâmio, Luciano Gatti e Thammiris Mandú – opera em alta sintonia, compondo um jogo de forças em que cada gesto pode ser interpretado de maneiras distintas. O que, aliás, é o próprio motor da peça. Trata-se de um grupo que não busca resolver a dramaturgia, mas habitá-la em sua complexidade.
Mas talvez o gesto mais importante de Rieser esteja na própria escrita. Em um momento histórico marcado por posições rápidas e certezas ruidosas, ele opta por um texto que não oferece respostas. Ao contrário: devolve perguntas. E isso, hoje, é quase um ato político.
Ainda assim – e é justamente por reconhecer a força do trabalho – fica a sensação de que a peça diz tudo antes de terminar. Há um ponto de saturação dramática em que o espetáculo já alcançou sua potência máxima, e tudo o que vem depois soa como um segundo final. A cena que encerra a obra, embora interessante como ideia, parece deslocada. Como se a peça, já concluída em sua essência, insistisse em explicar aquilo que já havia sido plenamente vivido pelo espectador.
Mas talvez esse “pequeno excesso” seja também sintoma da urgência que atravessa o trabalho. Porque Nós, os Justos é, antes de tudo, uma peça necessária. Daquelas que não se contentam em entreter, embora o façam com habilidade, mas que exigem algo de nós.
E, ao sair do teatro, a pergunta permanece, incômoda, quase impossível de silenciar: quem, afinal, são os justos?
