O dia em que eu me travesti para uma reunião importante de trabalho

Em 1999 Os Satyros comemoravam seus 10 anos de atividade e eu vivia entre Curitiba e Lisboa. Foi um período heroico este porque Os Satyros estavam em plena atividade nas duas cidades, além de Berlim, onde o Rodolfo trabalhava seis meses por ano, dirigindo o projeto Instant Acts, da instituição alemã Interkunst. Além de ter aprendido a falar o idioma, a partir de um desses livros “Aprenda a falar alemão sem mestre”, Rodolfo conhece a Alemanha mais do que muitos alemães. Viajou por centenas de cidades do país.

Em Curitiba, apareceu um edital da Fundação Cultural chamando proponentes para administrar a Casa Vermelha, no Largo da Ordem, e nós nos inscrevemos e fomos aprovados. Assim surgiu uma edição das Satyrianas, a única feita fora de São Paulo, que aconteceu entre os dias 30 de abril e 1º de maio, com 30 horas de atividades ininterruptas, ainda com o nome de “Folias Teatrais”.

Aqui, matéria do jornal Folha de Londrina, falando sobre o nosso evento

No programa de trabalho, além de discussões com nomes importantes da intelectualidade brasileira como Lucia Camargo, Décio Pignatari e Leandro Knopfholz, entre muitos, programamos pela primeira vez o evento “Show de Boate”, onde convidamos transexuais, travestis e drags para atuarem conosco. E foi uma confusão que vocês nem podem acreditar!

Não, nem sempre foi tranquilo trabalhar com temas da diversidade e identidade de gêneros. Sofremos muito no início. Quando Phedra de Córdoba, a partir de 2001, vem trabalhar com a gente na Praça Roosevelt, as coisas não eram tão tranquilas, não. Me lembro perfeitamente da primeira vez que aparecemos com a Phedra numa festa do Prêmio Shell. Não digo nomes, mas muita gente bacana da classe teatral em 2002 nos olhou com uma certa indignação, como se aquele lugar não nos pertencesse. Inesquecível, também, uma dessas vezes em que aparecemos com a nossa diva no restaurante Spot. Não, não tivemos nenhum problema com o restaurante. Mas com as pessoas que estavam por ali, sim. Seus olhares eram sempre de muita reprovação.

Mas voltemos a Curitiba e nossa festa de comemoração de 10 anos. Meu Deus, que noite! Centenas de pessoas atravessaram com a gente aquelas 30 horas que pareceram intermináveis. Nosso “Show de Boate” estava programado para acontecer às duas da manhã e foi, mais ou menos neste horário, que uma viatura da polícia estacionou em frente à Casa Vermelha. Uma funcionária da Fundação Cultural os acompanhava. Queriam impedir o evento com a justificativa de que o edifício era tombado pelo Patrimônio Histórico e que não poderíamos “depredá-lo” – sim, foi esta a palavra que utilizaram.

– Mas quem disse que estamos depredando a Casa Vermelha?, quis saber.

– Não se depreda apenas com ações. Transformar este espaço sagrado em lugar de depravação é, sim, depredação, nos informou a chefe da Fundação Cultural que era a responsável pelo nosso projeto.

Já tínhamos percebido que os temas da diversidade e identidade de gêneros eram um tanto complicados naquele momento. Mas entendemos rapidamente, eles estavam querendo proibir a nossa apresentação porque enchemos a Casa Vermelha de brilho e paetês. Claro que tentaram maquiar as coisas dizendo que o som estava muito alto, que não estávamos respeitando a lei do silêncio, etc e tal. Mas quem conhece o Largo da Ordem em Curitiba sabe que não existem moradias por ali, é um território comercial, em sua totalidade; portanto, sem vizinhos que poderiam se sentir incomodados.

Nossa, nunca briguei tanto. Depois de minutos intermináveis que duraram uma eternidade, abaixando o som, as luzes e controlando a muvuca que se formava em frente à Casa Vermelha, o espetáculo foi apresentado e seguimos com a nossa festa.

O que se sucedeu, no entanto, foi até engraçado. Durante a semana eu tinha marcado uma reunião com essa funcionária da Fundação Cultural, que acompanhava o projeto. Não tive dúvidas. Me maquiei exageradamente, coloquei uma peruca, brincos e salto alto. Não quis colocar vestido, fiquei com calça e camisa sociais. E lá fui eu para o meu encontro com a tal senhora.

A Fundação Cultural ficava também no Largo da Ordem e a minha chegada ao prédio já foi tensa. Os seguranças manifestaram o desejo de não me deixarem entrar.

– Acho que você não pode entrar aqui desse jeito, foi a primeira coisa que ouvi de um deles quando me aproximei da recepção.

Eu sabia que a minha atitude não era, assim, amistosa. Era um enfrentamento, então eu estava preparado para qualquer coisa.

Depois de um tempo, entre telefonemas da recepcionista e vai e vem da equipe de seguranças, fui liberado e lá fui eu para o encontro com a mulher que cuidava do nosso projeto. O que se sucedeu a partir daí foi hilário. Enquanto eu me dirigia à mesa da tal pessoa, os funcionários da repartição me olhavam num misto de curiosidade, reprovação e risinhos sem graça.

Me sentei na cadeira à frente da mulher, conversamos seriamente sobre o nosso papel naquele edital e jamais falamos sobre a minha peruca, meus brincos e colares. Porque ela, polida e politicamente correta, sabia que não poderia nos proibir de andar vestidos como queríamos.

Os gritos e os escândalos aconteceram em reuniões que antecederam ao nosso evento, durante sua preparação, quando a tal funcionária, ao descobrir que traríamos travestis, transexuais e drags para aquele espaço sagradíssimo, se colocou completamente contrária à sua execução, levando polícia, inclusive, na noite em que tudo o que queríamos era nos divertir e amar.

E sobre aquelas 30 horas na Casa Vermelha, não sei se deveria dizer aqui, pode até pegar mal, mas, sim, a gente se amou e se divertiu muito. Se aquelas paredes abrissem suas bocas teríamos tido, certamente, muitos motivos para sermos expulsos dali para o resto da vida…

* Foto em destaque, de Andre Stefano: eu, em “Cabaret Stravaganza”, texto de Maria Schu, Satyros, 2011

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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