NA MÍDIA: ROMANCE DA ROMA ANTIGA LEVA NUDEZ AOS PALCOS DO FESTIVAL DE CURITIBA

História romana da época de Cristo é recontada pelos Satyros na Mostra XXX
Companhia paulista discute temas em três apresentações que se completam

Trincha leva os espectadores a um mundo sadomasoquista psicodélico (foto: André Stéfano)

por Samuel Nunes

Há uma linha tênue entre o que é considerado erótico e o pornográfico. No cinema, os filmes que se situam em uma ou outra categoria são definidos quando o ato sexual é explícito ou encenado, quando há ou não a penetração. Na peça da companhia Os Satyros, apresentada durante a Mostra XXX, do Festival de Teatro de Curitiba, nem uma nem outra linha são cruzadas. O que se propõe é um debate entre valores morais da sociedade e os limites do amor.

Para compreender melhor a história proposta pelo diretor Rodolfo García Vázquez, o ideal é mergulhar em todas as experiências trazidas pelo grupo. Elas se dividem em três partes. Embora participar de cada uma possa trazer uma experiência distinta, juntas, “A Trincha”, “Satyricon” e “Suburra” levam o espectador a experimentar a própria sexualidade.

O diretor explica que cada um dos espetáculos tem uma peculiaridade. “É como observar a obra de um artista que faz um quadro, uma escultura e uma instalação sobre o mesmo tema. Elas existem separadamente e cada uma tem seu próprio sentido. Mas quando estão juntas, elas também se completam e ampliam a visão sobre o tema”, diz Vázquez.

Na instalação “Trincha”, há um Jesus que bebe cerveja e promete conceder todos os desejos dos espectadores. Depois de fazer o pedido, entra-se no labirinto de um mundo sadomasoquista surreal, com direito a uma dominatrix de lingerie e algemas e um bordel “multissexual”, passando por uma cigana transexual que garante descobrir como será o futuro ao ler as mãos dos visitantes.

Prostituição nos tempos de Jesus

Terminada a visita à instalação, começa “Satyricon”, a peça baseada no clássico livro do escritor romano Petrônio, que viveu durante os tempos de Cristo. O epicentro da história se baseia no triangulo amoroso entre três ex-escravos, em uma Roma Antiga repleta de menções pós-apocalípticas. Nesta Roma, todos estão corrompidos, seja pelo sexo, pelo dinheiro ou pela mera arrogância.

Encólpio, Ascilto e Gitão se conhecem ainda na rua, se prostituindo. Da amizade entre eles, surge o amor de Encólpio por Gitão. Tempos depois, Ascilto conquista Gitão. Encólpio não suporta a dor de perder o amado e daí parte em busca da reconquista de Gitão.

Percebe-se, porém, que mesmo estando todos imersos nessa cidade depravada, o amor verdadeiro não se corrompe e não admite a entrada do terceiro. Em vez de três se amando mutuamente, Gitão terá que escolher entre um ou outro.

García Vázquez conta que muito pouco do texto original foi modificado para a adaptação teatral. “A cena em que Encólpio é assediado por uma mulher rica em busca de sexo com um homem pobre é exatamente como está descrito no texto de Petrônio”, diz o diretor. Segundo ele, a novela do escritor romano foi perseguida durante os primeiros anos do catolicismo e restaram apenas alguns fragmentos. “Não se sabe exatamente como essa história começa e termina”, conta.

Grupo pesquisou prostituição

Para compor o espetáculo, a companhia também entrevistou diversos garotos de programa que trabalham nas proximidades da Praça Roosevelt, em São Paulo, onde Os Satyros mantém um teatro. “A questão da prostituição masculina retratada por Petrônio é muito próxima ao que se vê ainda hoje”, avalia García Vázquez.

Contada a história, chega o terceiro momento: “Suburra”. A ‘balada encenada’ leva o nome do bairro onde ficavam os prostíbulos da Roma Antiga. Homens e mulheres nus se misturam ao público, que, ainda recatado, aos poucos se mistura com a festa. “Para nós, é uma sátira aos ‘escravos modernos’ e a forma com que se ‘vende’ o corpo em troca do salário de cada dia”, explica.

Para quem quiser conferir as três experiências, o Espaço Cult fica na Rua Paulo Graeser Sobrinho, 305. As entradas para cada uma das encenações custam R$ 50 e há opção de meia entrada. A última apresentação ocorre neste sábado (31), a partir das 21h30.

Fonte: Globo Teatro, 31 de março de 2012

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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