MEYERHOLD: A TEATRALIDADE E A DIALÉTICA DOS OPOSTOS

Para Meyerhold, tanto o encenador quanto o ator não são meros executantes automáticos de uma obra dramática. Antes, serão criadores e organizadores do espetáculo, em toda a sua multiplicidade. Para ele, o público será cúmplice do fenômeno teatral. E prioriza a relação do intérprete com o público através de jogos que possam revelar e intensificar os traços psicológicos de ambos. Em seu teatro, nada é ilustrativo. Antes, um jogo vivo e único:

O Teatro nunca procura ilustrar seja o que for. Como toda arte, ele basta a si próprio. [1]

Defendeu a teatralidade e a estilização e propôs uma dialética de opostos: a farsa contra a tragédia e a forma contra o conteúdo de modo a forçar o espectador a encontrar uma visão mais apurada da realidade e vivenciar o teatro de forma renovada.

E seu impulso contribuiu para que o palco se tornasse uma área de atuação construída equipada de tal modo que todos os recursos de uma teatralidade pura possam se desencadear ali. [2]

Em 1905, Stanislavski vivia um momento crítico. Se por um lado gozava de respeito e prestígio por ter encenado as famosas produções de Tchékhov e Gorki, por outro era alvo fácil dos simbolistas que o consideravam ultrapassado. Até esse momento, não havia desenvolvido nenhuma teoria significativa sobre seu método de trabalho. Convida, então, Meyerhold para dirigir mais uma vez seu estúdio.

Meyerhold traz para o Teatro de Arte algumas das questões que o haviam motivado a deixar a companhia anos antes; nomeadamente, sua aversão ao teatro naturalista e ao realismo psicológico. Mais uma vez, Stanislavski e Meyerhold irão se desentender artisticamente e o projeto de desenvolverem novamente um trabalho em conjunto é desfeito.

Apesar de Meyerhold e Stanislavski serem tratados como opostos teatrais – um, preocupado com a teatralidade, outro, com o realismo –, o fato é que os dois se admiravam e respeitavam mutuamente. Meyerhold foi sempre um crítico e admirador persistente do Teatro de Arte e declarou certa vez: “Serei sempre um aluno de Stanislavski.” Stanislavski, em outra ocasião, o chamou de “filho pródigo”. De fato, os dois viviam uma relação de respeito e admiração profunda.

Desde sempre inquieto, Meyerhold, a partir de 1924, começa a divergir do percurso tomado pelo Partido Comunista Soviético, que exige que o teatro desempenhe uma proposta ideológica na construção do socialismo, com obras que reflitam o cotidiano, conceito básico do realismo socialista.

Com a montagem de O inspetor geral, em 1926, Meyerhold irá atingir o auge e também prenunciar o fim de sua brilhante carreira.

O inspetor geral de Meyerhold, um dos espetáculos-chave da história do teatro contemporâneo e da própria revolução do trabalho e das concepções teatrais do encenador, foi uma das produções mais polêmicas da década de vinte soviética. Apesar dos artigos favoráveis de A. Lunatchárski, Maiakóvski e alguns outros defensores, vários jornais atacaram Meyerhold por sua versão cênica do texto de Gógol. [3]

Foi perseguido pela crítica oficial, pela classe teatral e por toda uma geração de artistas. Isolado e solitário, passou a fazer frente ao período mais sombrio do stalinismo. Sua reputação, no entanto, não é de todo abalada. Em 1935, Stanislavski irá dizer: “O único encenador que conheço é Meyerhold.”

Sempre contestadora, a carreira de Meyerhold é ameaçada quando, em 1938, seu teatro é fechado por decreto, com a justificativa de que ali havia “difamações hostis contra o estilo de vida soviético”. Stanislavski irá surpreender a todos convidando Meyerhold a trabalhar com ele no novo Teatro Ópera Stanislavski. Era uma decisão valente oferecer proteção a alguém que caíra em desgraça diante do sistema. Mas Stanislavski sabia o que estava fazendo e, aceitando as responsabilidades de sua decisão, alegou: “Precisamos de Meyerhold no teatro. Ele é meu único herdeiro.”

Stanislavski morreu em agosto de 1938, aos 75 anos, e foi enterrado ao lado de Tchékhov. Meyerhold morreu em fevereiro de 1940, tinha 66 anos e foi fuzilado pelas tropas do regime de Stálin, na prisão. Fora detido algum tempo antes, após o Congresso Geral dos Diretores Teatrais, por ter se negado à manifestação pública de submissão e retratação artística. Zinaída Raikh, sua mulher e também primeira atriz de sua companhia, foi encontrada morta em seu apartamento, pouco tempo depois da prisão de Meyerhold.

[1] Vzévolod Meyerhold, O teatro teatral, Lisboa, Arcádia, 1980, p. 118.
[2] Jean-Jacques Roubine, A linguagem da encenação teatral, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1998, pp. 60-61.
[3] Arlete Cavaliere, O inspetor geral – de Gógol/Meyerhold, São Paulo, Editora Perspectiva, 1996, p. 1.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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