Na semana passada, Marilia Marton fez algo que, em tempos de cansaço institucional e desconfiança crônica, beira o milagre: juntou gente. Gente de verdade. Gente que faz. Gente que insiste. No edifício imponente da Sala São Paulo – esse templo erguido para a música, mas que naquele dia respirava política pública – mais de quinhentas pessoas vieram de todos os cantos do estado. Interior, litoral, bordas, centros, desvios.
A intenção era simples e, por isso mesmo, radical: colocar os equipamentos da Secretaria em contato direto com quem está longe do centro. Olhar para um estado que não cabe na capital. Lembrar que São Paulo não é uma cidade, mas um corpo imenso, com mais de seiscentos municípios – cada um com sua própria temperatura, urgência e modo de inventar cultura.
Não foi a primeira vez. No ano passado, a secretária já havia feito esse chamado inaugural – bonito, potente, promissor. Mas desta vez havia algo a mais no ar. Talvez maturidade. Talvez coragem. Talvez a confiança de quem percebe que política cultural não se faz apenas com editais, mas com presença.
E presença é isso: escutar, cruzar olhares, criar atalhos onde antes só havia distância.
O efeito não tardou. Desde então, prefeituras de várias regiões têm nos procurado, aqui na SP Escola de Teatro, abrindo possibilidades de parceria, circulação, encontro. A cultura, quando encontra passagem, se espalha. E quando se espalha, transforma. Não como espetáculo, mas como tecido. Não como anúncio, mas como vínculo.
É tão, mas tão lindo ver isso acontecer. Porque num país acostumado a ruídos, esse gesto foi escuta. Num tempo de fragmentação, foi costura. Num cenário tantas vezes marcado pela escassez, foi abertura.
Às vezes, o milagre não está no extraordinário. Está no simples que finalmente acontece.
