ESPECIAL: Os melhores do teatro em 2019 (até agora)

Ainda estamos no início  de novembro, mas já dá pra se ter uma ideia de como a temporada teatral reagiu neste 2019, um ano cheio de controvérsias e confusão no âmbito cultural.

Ano em que vimos desaparecer o Ministério da Cultura, 2019 será pra sempre um tempo de resistência, pelo menos para o pessoal das artes cênicas, que viu desaparecer incentivos e, em São Paulo, o Programa de Fomento ao Teatro ter sido cancelado por causa de uma pendenga de um movimento de artistas com a Cooperativa de Teatro. Neste momento, o imbróglio foi resolvido e a Secretaria Municipal de Cultura avalia projetos, depois de mais de um ano desde a última edição.

Como fiquei o ano todo em cartaz – iniciei atuando em “Cabaret Fucô” e estreei “Mississipi”, em março –, vi pouquíssimas peças. Desse modo, fui perguntar aos críticos (e ao público também), que me revelaram as suas preferências. Perguntei sobre atores, atrizes, dramaturgos e peças que se revelaram neste ano.

 

Rio de Janeiro

O ator e fotógrafo Silvio Pozatto, do Rio Janeiro, fez uma pequena radiografia do que aconteceu em terras cariocas neste ano. Segundo ele, três atores se sobressaíram nesta temporada: Aloísio de Abreu, Andrea Dantas e Raquel Iantas.

Aloísio de Abreu em “AloísioFrankSinatraDeAbreu”: musical de sucesso (foto: Ricardo Brajterman/Divulgação)

Aloísio de Abreu, que é diretor, cantor, compositor e tradutor, produziu e protagonizou três espetáculos musicais de sucesso: “AloísioFrankSinatraDeAbreu”, “Minha Vida Daria um Bolero” e “O Amor nos Tempos da Bossa Nova”.

Andrea Dantas, que neste ano pode ser vista também na novela “Espelho da Vida”, Globo, atuou nos espetáculos “O Diabo em Mrs. Davis” e “Crianças”, atualmente em cartaz no Sesc 24 de Maio, em São Paulo.

Andrea Dantas em “O Diabo em Mrs. Davis”, destaque no Rio (Foto: Luciana Mesquista/Divulgação)

Ainda segundo Pozatto, Raquel Iantas arrebatou o público carioca com o monólogo “Irina”, texto de sua autoria e colaboração artística de Aderbal Freire Filho, Bruno Lara Resende, Eleonora Fabião e Marcio Abreu.

Ainda na seleção de Silvio Pozatto, um dos melhores espetáculos do ano foi “Irmãos de Sangue”, da Companhia franco-brasileira Dos a Deux, de Andre Curti e Artur Ribeiro.

Silvio finaliza sua lista apontando o ator Leonardo Netto como destaque de 2019. Leonardo, que teve papel importante na minissérie “Assédio”, Globo, atuou no monólogo “Três Maneiras de Tocar no Assunto”, de sua autoria, com direção de Fabiano de Freitas; e dirigiu a atriz Ana Beatriz Nogueira no solo “Um Dia a Menos”, de Clarice Lispector.

 

São Paulo

Segundo os críticos ouvidos pelo nosso blog, a temporada paulistana foi bastante concorrida e não houve unanimidade em suas escolhas. Um único ator, Fábio Penna que atuou em “Mississipi”, do Satyros, foi citado por três dos nossos entrevistados. Com duas citações aparece a atriz Márcia Dailyn, protagonista de “Entrevista com Phedra”, também do Satyros.

Um único ator, Fábio Penna que atuou em “Mississipi”, do Satyros, foi citado por três dos nossos entrevistados (foto: Silvio Eduardo/Divulgação)

O crítico Amilton de Azevedo, do site Ruína Acesa, aponta a atriz Fábia Mirassos, que depois “de belo trabalho” em “Luis Antonio – Gabriela”, protagonizou “Máquina Branca”, “onde demonstrou todo seu potencial”. Amilton ainda destaca a atriz Tamirys O’Hanna, que depois de trabalhos com Nelson Baskerville, onde já se sobressaía, compôs uma bela personagem em “Coisas que Você Pode Dizer em Voz Alta”. Segundo Amilton, Tamirys, “carismática e hábil cantora, mostrou-se uma atriz versátil”.

O crítico também lembra do trabalho de Joana Dória no solo “A Filha da Mãe”, pela “notável precisão técnica no desenho das intenções do texto, já presente em seus trabalhos anteriores”.

Ainda segundo Amilton, outros dois destaques do ano foram Felipe Soares e Ramon Brant, pelo potente duo “Chão de Pequenos”. Amilton ressalta que os atores tiveram “incrível sintonia, desenhando com seus corpos e coreografias a trajetória das personagens, sendo suas interpretações o centro da encenação”.

O jovem ator Lucas Heymanns, que escreveu e atuou no espetáculo “Hipocôndrio”, foi, segundo Amilton de Azevedo, mais um dos destaques da temporada. O crítico aponta que Lucas, “marcado por uma caracterização corpóreo-vocal complexa, deixou o espectador capturado pela curiosa figura”.

Joana Dória no solo “A Filha da Mãe”: precisão técnica (Foto: Diogo Nazaré/Divulgação)
Lucas Heymanns: caracterização corpóreo-vocal complexa (Foto: Reprodução Instragram)

Amilton, que priorizou espetáculos com protagonistas delineados ou solos/duos, fecha a sua lista destacando o ator Vinicius Meloni que “aproveita bem suas participações” no espetáculo “Fim”, mas que se sobressai em “Terror e Miséria no Terceiro Milênio”, principalmente na cena onde interpreta um juiz angustiado pelas decisões que precisa tomar.

Conversamos também com a diretora Mika Lins, que destacou o ator Augusto Pompeu, que fez o Juiz  Fei, em “Tutankaton”, de Otavio Frias Filho. Segundo Mika, o ator de 75 anos, que trabalha como professor de educação física em escolas estaduais “para poder fazer teatro com tranquilidade é um ator maravilhoso”.

O publicitário Sergio Glasberg, que partilha da ideia de que “o que não falta é talento nesse Brasil”, lembrou do trabalho de Lu Curvo em “Mãe Coragem”.

Roberto Francisco e Henrique Mello: suas interpretações foram pontos altos da temporada (Foto: Laysa Alencar/Divulgação)

Espectador assíduo dos teatros da cidade, o professor Angelo Rubin escolheu o espetáculo “Canção de Amor”, do Satyros, como o destaque do ano, lembrando que as interpretações de Roberto Francisco e Henrique Mello foram pontos altos da temporada. Angelo ainda destaca o trabalho de Fábio Penna, em “Mississipi”, como “surpreendente”; saúda o jornalista Miguel Arcanjo Prado, que estreou como dramaturgo na peça “Entrevista com Phedra”, e aponta Márcia Dailyn como melhor atriz, protagonista do texto de Arcanjo.

Márcia Dailyn: alcançou novo patamar cênico (Foto: Annelize Tozetto/Divulgação)

Miguel Arcanjo Prado, que também é crítico do UOL e da Associação Paulista dos Críticos de Arte – APCA, escolheu três atrizes como destaques deste ano: Carol Costa, Márcia Dailyn e Julia Bobrow. Sobre Carol, Miguel afirma que “a talentosa atriz surpreendeu a todos pela impecavelmente charmosa criação da personagem Chiquinha” em “Chaves – Um Tributo Musical”. A respeito de Márcia Dailyn, o crítico vai dizer que “a atriz do Satyros alcançou novo patamar cênico ao recriar com maestria a icônica diva cubana Phedra D. Córdoba em ‘Entrevista com Phedra’, impressionando não só ao público como também a este autor estreante ao fazer ressuscitar no palco a saudosa personagem”.

Julia Bobrow assombrou o público (Foto: Andre Stefano/Divulgação)

Em relação a Julia Bobrow, que atuou em “Mississipi”, Miguel salienta que “a atriz mergulhou nas profundezas da mente em delírio de uma mulher em situação de rua que assombrou o público ao revelar, sem subterfúgios, as contradições do Brasil contemporâneo”.

O professor e crítico do Prêmio Shell, Ferdinando Martins, é outro que se lembrou do trabalho de Fábio Penna. Segundo ele, Fábio se destacou porque “apesar de já ter uma grande trajetória, neste ano ele surpreendeu com sua atuação em ‘Mississipi’ e sua versatilidade no cinema e no teatro”.

Ferdinando também elenca o ator Thiago Mendonça, que atuou em “Stonewall 50”, “por sua honestidade e coragem”.

Thiago Mendonça em “Stonewall 50”: honestidade e coragem (Foto: Reprodução Instagram)

As duas atrizes que surpreenderam Ferdinando Martins foram Janaína Leite e Nicole Puzzi. Para o crítico, Janaína teve um “mergulho visceral nos afetos em ‘Stabat Mater’ e ‘Feminino Abjeto’” e é “daquelas atrizes que não tem medo de ir cada vez mais fundo em suas investigações sobre a natureza humana”. Sobre Nicole, Ferdinando vai afirmar que é “uma atriz resiliente, apaixonada, intensa que se consolida agora nos palcos”.

Para Lucia Camargo, também da comissão do Prêmio Shell, os destaques de 2019 foram Tania Bondezan (“A Golondrina”), “uma atriz amadurecida em cena”; Helena Ranaldi (“Cordel do Amor sem Fim”), “pela surpreendente disponibilidade em cena” e Bete Coelho (“Mãe Coragem”)“pela força de sua interpretação”.

Nicole Puzzi: resiliente, apaixonada e intensa (Foto: Andre Stefano)
Bete Coelho: força em cena (Foto: Jennifer Glass/Divulgação)

Rogério Brito, “pela sua versatilidade entre o cômico e o dramático” em “Ricardo III ou Cenas da Vida de Meierhold”; Eric Lenate, “pela interpretação brilhante” em “Balada dos Enclausurados”, e Mateus Solano, “correto e criativo” em O Mistério de Irma Vap, são os destaques de Lucia para os atores desta temporada.

O crítico e diretor do Prêmio Aplauso Brasil, Michel Fernandes, elege três destaques: Lara Córdula, Fábio Penna e Marisa Orth. Segundo Michel, Lara, que atuou em “Dolores”, “encarou o desafio com muito talento”. Sobre Fábio Penna, ator de “Mississipi”, o crítico afirma que o ator “desenhou um personagem com tamanha segurança e minimalismo como poucas vezes se viu em cena”. Por fim, sobre Marisa Orth, que protagonizou “Sunset Boulevard”, o crítico vai dizer que a atriz “esteve surpreendente em um registro dramático”.

 

 

Lara Córdula: desafio com muito talento (Foto: Wilian Aguiar/Divulgação)
Marisa Orth: surpreendente em registro dramático (Foto: Divulgação)
Livia Feltre: estridência psicodélica em cada uma de suas intervenções (Foto: Reprodução Facebook)

Também quisemos falar com o escritor e crítico da APCA, Marcio Aquiles, que elencou seus destaques. As atrizes, segundo Aquiles, que se destacaram nesta temporada foram Lívia Feltre e Carolina Haddad. Sobre Lívia Feltre, irá dizer que “na antropofagia até as últimas consequências da adaptação de Bia Lessa para ‘Macunaíma’, a atriz incorpora com perfeição personas intensas e repletas de delírio, rasgando o palco com sua corrida desvairada ou levantando uma estridência psicodélica em cada uma de suas intervenções”. A respeito de Carolina Haddad, o crítico afirma que “a atriz carioca, radicada por muitos anos na França, desembarcou com tudo no teatro paulistano para encenar ‘Chernobyl’, ao lado das grandes intérpretes Joana Dória, Manuela Afonso e Nicole Cordery”.

Os atores que se sobressaíram nesta temporada no teatro, ainda segundo Marcio Aquiles, foram Jesuíta Barbosa e Jé Oliveira. Sobre Jesuíta, Marcio destaca que “com trabalho já reconhecido na televisão e no cinema, o ator consolidou sua potência criativa nos palcos com o espetáculo ‘Lazarus’, por meio de perfeita gramática corporal – lembrando muito o próprio Bowie, tanto do filme ‘The Man Who Fell to Earth’ quanto de suas performances em shows, sobretudo os do final dos anos 1970 e início de 1980 – e harmonia precisa nas canções do musical dirigido por Felipe Hirsch”. De Jé Oliveira, o crítico salienta que “como ator e diretor, consolidou-se como genuíno talento neste ‘Gota D’Água {PRETA}’, uma obra-prima.”

Jé Oliveira: como ator e diretor, consolidou-se como genuíno talento em “Gota D’Água {PRETA}” (Foto: Jorge Martins/Divulgação)

Finalmente, como um último destaque de 2019 até agora, Marcio Aquiles coloca o trabalho dos jovens atores Richard Marques, Pedro Sousa e Tiago Fernandes, “numa afinadíssima performance para a adaptação de ‘Billy Elliot’”.

A crítica Kyra Piscitelli, do Prêmio Aplauso Brasil e da APCA, também elencou dois atores e duas atrizes como revelações do ano. Segundo a crítica, as atrizes que brilharam em 2019 foram Nicole Marangoni e Bruna Longo. Sobre o trabalho de Nicole, Kyra afirma que a atriz “transformou suas vivências com o luto de seu pai em um projeto teatral solo, autoral e forte, encenado em uma sala de aula da Aliança Francesa do centro”. “Eu/Telma” não teve direção e sim mentoria de mulheres consagradas do teatro: Evinha Sampaio, Janaína Leite, Naiene Sanchez e Rhena de Faria”.

A respeito de Bruna Longo, Kyra destaca que “com carreira consolidada, colocou o próprio projeto em cena pra experimentação do público e depois temporada na Oswald de Andrade. ‘Criatura, Uma Autópsia’ é símbolo dos nossos tempos, em que os atores têm se lançado mais em projetos solos, autorais, com recursos próprios no resumo ‘se eu não fizer, não farão por mim’”.

Nicole Marangoni: projeto teatral solo, autoral e forte (Foto: Rafael Latorre/Divulgação)
Bruna Longo: transformou suas vivências com o luto de seu pai (Foto: Danilo Apoena/Divulgação)

Os dois atores lembrados pela crítica Kyra Piscitelli foram Luciano Mallmann e Gregorio Duvivier. Luciano, que sofreu uma lesão medular e ficou paraplégico, “criou o projeto ‘Ícaro’, para trazer a realidade dos cadeirantes para o teatro”. E sobre Duvivier, pelo solo “Sísifo”, que traz o ator, diretor conhecido pelo trabalho com humor, para o drama em um clássico reinventado, resultado de uma feliz parceria com Vinicius Calderoni, “reveladora de uma diferente face do artista”.

 

* Em destaque, foto do espetáculo “Billie Elliot”, por João Caldas Fº/Divulgação

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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