Emília em combustão – o Sítio depois da inocência

A história do teatro brasileiro recente não pode ser contada sem o trabalho do Teatro da Vertigem. Desde os anos 1990, o grupo vem nos lembrando que o teatro não é apenas aquilo que se representa em cena, mas aquilo que se experimenta no corpo do espectador. Um espaço de fricção entre arte, política e memória. Em Agropeça, essa vocação crítica reaparece com força renovada. O espetáculo não apenas revisita um imaginário brasileiro profundamente arraigado, mas o desmonta peça por peça.

A montagem parte de um território aparentemente familiar: o universo do Sítio do Picapau Amarelo, criado por Monteiro Lobato. Durante décadas, esse sítio foi apresentado como um lugar idílico, quase pastoral, um Brasil infantilizado onde tudo parecia harmonioso. Agropeça olha para esse mesmo espaço com olhos do presente. E o que encontra não é um paraíso bucólico, mas um campo minado de contradições históricas.

O espetáculo opera, portanto, como uma espécie de arqueologia crítica. Aquilo que parecia inocente revela camadas profundas de preconceitos estruturais: racismo, patriarcalismo, higienismo, colonialidade. Nada é tratado de maneira panfletária. Ao contrário, o espetáculo desmonta esses mecanismos com inteligência cênica e uma fina ironia dramatúrgica. O resultado é uma obra que se ergue sobre o desconforto produtivo, aquele que nos obriga a olhar novamente para aquilo que julgávamos conhecer.

O texto de Marcelino Freire é afiado, e a direção de Antonio Araújo conduz esse material com grande precisão. Há uma engenharia teatral muito direta na forma como o espetáculo organiza suas tensões: momentos de humor ácido se alternam com passagens de forte densidade simbólica. Os figurinos de Awa Guimarães, o cenário de Eliana Monteiro e William Zarella Junior, e a iluminação – complexa e minuciosa – de Guilherme Bonfanti colaboram decisivamente para instaurar esse ambiente de desconstrução. A luz cria atmosferas quase febris, enquanto os figurinos parecem operar como camadas de memória: restos de um Brasil imaginado que vão sendo, pouco a pouco, desmontados diante de nós.

A direção musical e a trilha original de Dan Maia também desempenham papel fundamental na tessitura do espetáculo. A música não aparece como mero acompanhamento, mas como força dramatúrgica que atravessa a cena, ampliando seus climas e tensões. Cabe ainda destacar a co-direção de Eliana Monteiro, figura histórica e central do Teatro da Vertigem, cuja presença artística se faz sentir na delicada arquitetura do espetáculo – uma construção coletiva em que cada camada de criação encontra seu lugar dentro da pulsação viva da cena.

Mas é no trabalho do elenco – Andreas Mendes, James Turpin, Mawusi Tulani, Paulo Arcuri, Tenca Silva, Victor Salomão, Vinicius Meloni, Lola Fanucchi – que a peça encontra sua temperatura mais intensa. Os atores do Vertigem demonstram novamente a capacidade rara do grupo de produzir uma atuação coletiva de alto nível, na qual cada intérprete parece sustentar um campo energético compartilhado. Há entrega, risco e uma escuta muito fina entre os corpos em cena.

E, no centro desse redemoinho teatral, está o trabalho absolutamente extraordinário de Tenca Silva.

Seu desempenho é de uma potência raramente vista nos palcos brasileiros. O que Tenca realiza em cena não é apenas interpretação. É uma verdadeira declaração de amor ao teatro. Seus recursos parecem infinitos. Há ali um domínio impressionante do corpo, da voz e – sobretudo – da presença. A atriz trabalha com uma entrega absoluta, como se cada instante em cena fosse vivido no limite de sua própria combustão.

É fascinante perceber que sua construção da personagem Emília se dá também por um processo físico de decomposição. Desde os primeiros momentos do espetáculo, vemos a atriz se desmanchando diante de nós, literalmente. O corpo se altera, a respiração se modifica, e o suor começa a fazer parte da própria dramaturgia da cena. Não se trata apenas de um efeito realista. O suor torna-se matéria poética. Ele passa a integrar o processo de construção da personagem, como se o corpo da atriz estivesse atravessando uma espécie de combustão simbólica.

Essa Emília – figura central do imaginário infantil brasileiro – surge aqui como uma criatura complexa, febril, atravessada pelas tensões do presente. Não é mais a boneca irreverente do imaginário televisivo. É uma personagem que carrega as fissuras da história. Sem ingenuidade, sem concessão.

E talvez seja exatamente esse o gesto mais potente de Agropeça. O espetáculo nos lembra que os mitos nacionais – sobretudo aqueles ligados à infância – não são territórios neutros. Eles carregam visões de mundo, ideologias, estruturas de poder. Revisitar esses mitos não é destruí-los gratuitamente, mas compreendê-los melhor.

Ao final da apresentação, fica a sensação de termos assistido não apenas a uma peça, mas a um exercício coletivo de revisão e reparação histórica. Um teatro que olha para trás para poder seguir adiante.

Em tempos em que o Brasil ainda luta para reorganizar suas estruturas simbólicas e sociais, Agropeça surge como um gesto artístico necessário. Um espetáculo que nos convida a reexaminar os fundamentos de nossas narrativas culturais.

E, no centro desse gesto, permanece a imagem inesquecível de Tenca Silva – suada, intensa, atravessada por uma força cênica quase indomável. Uma atriz em estado de teatro!

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
Post criado 2028

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