E o que é que a gente faz com Nelson Rodrigues, nosso maior dramaturgo?

Assisti ao espetáculo “Bonitinha, mas Ordinária”, de Nelson Rodrigues, direção de Luiz Arthur Nunes, no início da semana. Me lembrei que foi o primeiro texto de Nelson que eu li e toda a explosão de sentimentos daquela primeira vez veio novamente, enquanto assistia ao espetáculo.

Eu tinha 20 anos quando conheci a obra de Nelson Rodrigues. A partir desta leitura de “Bonitinha…”, acabei devorando todos os seus textos, depois as crônicas, as novelas, os romances, tudo. Durante muitos anos fui um completo apaixonado por Nelson Rodrigues. Li “O Anjo Pornográfico”, sua biografia, escrita por Ruy Castro.

Ao longo dos anos, assisti a montagens antológicas de seus textos, como “Toda Nudez Será Castigada” (1985), de Nitis Jacon, “Paraíso Zona Norte” (1989), de Antunes Filho, e “Vestido de Noiva” (1994), de Eduardo Tolentino. E até nos Satyros, nos aventuramos montando obras suas, como “Valsa nº 6” (1997, em Lisboa) e “Vestido de Noiva” (1999). Também fui convidado – mas, por compromissos acertados anteriormente, não pude aceitar – para trabalhar na montagem de “Anjo Negro”, dirigida pelo alemão Castorf, em 2006.

A peça “Bonitinha, mas Ordinária”, cujo título é, na verdade, “Otto Lara Rezende ou Bonitinha, mas Ordinária”, conta a história de Maria Cecília, a filha de um homem poderoso que é estuprada aos 17 anos por três desconhecidos, que é entregue pelo pai a Edgar, funcionário há 11 anos de sua companhia.

No primeiro encontro, o pai de Maria Cecília humilha Edgard chamando-o de “Peixoto”, o genro que se casou com a outra filha apenas pelo dinheiro. Edgar não aceita a humilhação e vai passar a peça toda tentando provar que ele não está interessado em Maria Cecília apenas por dinheiro e que ele não é um “Peixoto”. Mas Edgar também está envolvido com Ritinha, sua vizinha, que vive com a mãe doente, mais três irmãs menores. Enquanto Edgar vai lutar para provar que não é um “Peixoto”, revelações que vêm de Ritinha e de Maria Cecília vão mudar o rumo das coisas.

Então estou sentado no escurinho do teatro, lá na última fila, e logo no início da peça um dos personagens dispara:

— Toda mulher é burra. Burra, entendeu?

A partir daí, muita humilhação às mulheres será desferida pelas personagens no palco. Até que lá pelas tantas, quando Maria Cecília narra o estupro que sofrera, vai revelar que foram cinco negros, ou “crioulões”, que a violaram e, novamente, muita humilhação aos negros serão proferidas ali. O que deixa evidente em subtexto, no entanto, é que se os homens fossem brancos talvez o ato tivesse sido menos violento.

Fazia muito tempo que não me aproximava do universo rodrigueano. E chegar perto dele, neste momento, é tarefa bem complicada. Então, lá no escurinho da minha poltrona, eu comecei a pensar na biografia de Nelson, que era machista de marca maior, condenou o feminismo, desdenhou a obra de Marx e defendeu a ditadura – até que um de seus filhos foi preso por militares, quanta ironia!

Por outro lado, era impossível não perceber a genialidade de nosso dramaturgo maior. A maneira como articula as cenas e organiza o drama; a forma direta de seus diálogos e a profundidade na construção de suas personagens. Genial, sempre!

Comecei, então, a divagar sobre o “lugar de fala”, tentando imaginar o que diriam as feministas, hoje, e me lembrei de Viola Davis, que vai produzir, nos EUA, “O Beijo no Asfalto”. Inevitável, então, não me lembrar de Roman Polanski, que estuprou uma menina de 13 anos, mas que concebeu obras-primas como “O Bebê de Rosemary” (1968) ou “Chinatown” (1974) e que não teve perdão – e, certamente, nunca terá – do mesmo movimento feminista do qual Viola Davis é musa.

Veio, ainda, a lembrança da cineasta Leni Riefenstahl, a preferida de Hitler, considerada por muitos críticos como uma das maiores cineastas da história, mas que fez propaganda ao nazismo em suas obras.

Tudo isso pra tentar imaginar o que representa Nelson Rodrigues hoje. Como encená-lo, como discutir e apreender sua obra? Ou chegou o momento de jogá-lo numa lata de lixo e execrá-lo pra sempre? Gostaria, inclusive, de mostrar uma frase de Nelson a Viola Davis e saber a sua opinião sobre ela. Aquela, onde Nelson diz:

— Nem todas as mulheres gostam de apanhar. Só as normais. As neuróticas reagem.

Mas antes de colocar um ponto de interrogação final nestas divagações, ainda me lembrei de Martins Penna, o dramaturgo, que foi um excelente cronista  do Rio de Janeiro do século XIX e que retratou os negros escravizados de forma desrespeitosa em seus textos. O que faremos com sua obra?

Por fim, como respondemos todas estas questões? Como encarar Nelson Rodrigues nesses tempos onde falta de tudo, ideias, interação, tolerância e empatia?

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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4 comentários em “E o que é que a gente faz com Nelson Rodrigues, nosso maior dramaturgo?

  1. Ivam, sim!

    Não esqueço também das tantas vezes que vi vocês em “Vestido de noiva”. A genialidade da obra que mistura sonho, acontecimentos e possibilidades. “Alaíde era louca por toda mulher que não prestava”, seu Pedro dizia.

    Só que não cabe mais representar a mulher como quem presta ou não, quem é louca, sedutora, sem voz… Aprendemos que não podemos dar voz aos tiranos, pensando que são só tolos…

    O que faremos?

  2. Esses dias lendo algumas histórias de Monteiro Lobato para o Gustavo, me peguei suprimindo ou trocando algumas palavras pois eram racistas, acabei de arrependendo de ter comprado o livro. Como caminharemos? Ainda não consigo imaginar um meio termo para esses gênios que tem um legado incrível, mas foram preconceituosos, misoginos, nazistas, racistas.

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