CRÍTICA | Quem tem medo do Sympla e do Zoom?

Quando comecei a frequentar teatro nos idos dos anos1960 era comum encontrar na bilheteria das salas de espetáculo uma tábua que reproduzia a plateia com buraquinhos redondos que representavam os lugares; nesses buraquinhos eram introduzidos os ingressos enrolados. O espectador escolhia os lugares, a bilheteira retirava os ingressos escolhidos, desenrolava e entregava ao cliente mediante o pagamento em dinheiro. Como as coisas evoluíram! Quase 60 anos depois isso foi substituído pelo Sympla. Ai, que medo!

Toda vez que tenho conhecimento de algum espetáculo que será transmitido via internet o primeiro medo é: como vou adquirir o ingresso, seguido do segundo que é maior ainda: vou conseguir acessar o espetáculo?

Tive a sorte de ser acompanhado nessa trajetória tecnológica por “bilheteiros” exemplares. A primeira experiência foi há um mês com o Bruno Kott e a Nicole Cordery e a segunda nesta semana com o Rodolfo García Vázquez. Dias antes, com a maior paciência e carinho do mundo, Rodolfo me introduziu no mundo dos Symplas e dos Zooms, explicando passo a passo como eu ia adquirir o ingresso, como entraria na sala do zoom onde ia ser apresentada a peça e que botõezinhos eu deveria apertar para assisti-la corretamente.

Sexta feira, dia 03 de julho, 20h45! Chegou a grande hora. Com medo me coloco na frente do notebook para enfrentar a fera. Entro no Sympla e depois no Zoom. Primeira etapa vencida com sucesso. Paciente e carinhosamente Mariana França e Henrique Mello repetem as instruções. E aí começa o novo trabalho dos Satyros: A ARTE DE ENCARAR O MEDO.

Espetáculo corajoso e pesado, como são pesados os tempos que estamos vivendo. A pandemia do corona vírus e os desmandos do insano governo a que estamos submetidos envolvem todo o espetáculo. Os dezoito atores (incluindo os atores mirins) fazem seus depoimentos sobre um isolamento que dura mais de 15 anos, mais precisamente 5.555 dias, falando sobre seus medos, suas revoltas e por que não, sobre suas remotas esperanças. As cenas se sucedem muito bem sincronizadas utilizando recursos tecnológicos que o grupo domina perfeitamente. As experiências anteriores dos Satyros, incluindo as cinematográficas, contribuíram bastante para resultado tão harmônico.

Todo o elenco está perfeito e imbuído do mesmo propósito com interpretações memoráveis onde não posso deixar de destacar aquelas de Julia Bobrow, de Marcia Dailyn, de Ivam Cabral, de Fabio Penna e de César Siqueira, aparentemente um estranho no ninho que se aclimatou perfeitamente ao espírito dos Satyros.

Destaque também para a belíssima e envolvente trilha sonora criada por Marcelo Nassi.

Ao final do espetáculo se pode participar de um bate papo simpático e informal, onde cada espectador tem a oportunidade de colocar seus pontos de vista e de fazer perguntas, que são prontamente respondidas pelo elenco sob a liderança do Ivam Cabral.

Tudo acontece de maneira tão espontânea e informal que terminamos a noite com a sensação de que estivemos realmente juntos e…ao vivo!

 

Obrigado Rodolfo. Obrigado Ivam. Obrigado Satyros por tão belo acolhimento e por espetáculo tão oportuno e bem realizado.

 

VIVA O TEATRO DIGITAL!

Fonte: Palco Paulistano

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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