CRÍTICA | a virtual distopia dos tempos

por Amilton Azevedo

Estamos no final de julho. As pessoas que seguem respeitando a quarentena já estão há mais de cem dias isolados em suas casas, com pouco ou nenhum contato com amigos e familiares. O mundo virtual é, para muitas, muitos e muites, a única possibilidade de relação que se desenha no horizonte. Em A Arte de Encarar o Medo, já são mais de cinco mil dias de isolamento. Para sua estreia no chamado teatro digital, Os Satyros constroem uma ficção que amplifica as ausências que a realidade nos aflige.

Com direção de Rodolfo García Vázquez, que assina o roteiro ao lado de Ivam Cabral, o espetáculo se destaca no atual cenário pelo elenco numeroso: são 16 nomes, além de mais um ator e dois atores mirins convidados. Os Satyros levam ao Zoom seus trinta anos de grupo ao mesmo tempo em que buscam compreender as limitações e possibilidades deste formato – e destes tempos.

Quando teatros precisaram ser fechados devido à pandemia, Cabral estava no meio da temporada de seu solo no Espaço dos Satyros Um, na praça Roosevelt, centro de São Paulo. Pouco tempo depois, Todos os sonhos do mundo já era apresentado no formato de live no Instagram do artista. O espetáculo já carregava uma encenação intimista, e as apresentações de Cabral estruturavam-se quase como uma conversa com seus espectadores.

Na mesma época, Cléo de Páris e Fábio Penna, também dOs Satyros, criaram o experimento Desamparos – que segue em cartaz no Instagram da atriz. Em abril e maio, obras que já estavam em processo de ensaio optaram pelos palcos virtuais, assim como espetáculos em repertório de companhias foram adaptados. Talvez sejam os primeiros exemplos a estreia de O filho do presidente, da companhia carioca Teatro do Caminho e a transposição para a internet de Amores Difíceis, das paulistas do Grupo Arte Simples de Teatro.

Aos poucos, o público passa a encontrar no digital uma oferta cada vez mais abundante de obras de base teatral apresentadas ao vivo e pensadas especificamente para o formato – o texto da emergência dos possíveis aborda algumas das já citadas e outras deste momento inicial da pandemia.

Formatos e plataformas diferentes se tornaram um frutífero campo de experimentação para uma série de artistas. Desde Onde estão as mãos, esta noite?, um monólogo de atuação precisa e dramaturgia primorosa apresentada no Zoom até o complexo Peça, solo de Marat Descartes em cartaz no YouTube. Em comum, um número reduzido de atuantes e o caráter de pesquisa dos experimentos.

O pioneirismo dos Satyros reside no fato de ser a primeira companhia teatral de grande porte, com três décadas de história, a conceber um espetáculo digital inteiramente novo, compreendendo o enquadramento da virtualidade como mais um passo na longeva pesquisa do grupo. Talvez A Arte de Encarar o Medo seja uma das primeiras obras deste período que possa ser analisada sob a ótica da encenação.

Não se trata apenas de uma peça com um elenco numeroso. A obra, ao estruturar-se de forma fragmentada (uma marca do teatro pós-dramático que parece inscrita profundamente dentro do formato digital), pode ser lida como uma sucessão de esquetes pensadas para enfrentar o porvir. Ao mesmo tempo, a direção de Vázquez lança seu olhar para as composições possíveis dentro da plataforma de videoconferências.

A Arte de Encarar o Medo parece buscar, desde o início, formalizar o desespero dos tempos. Compreende, inclusive, a demanda da interatividade – que aqui torna-se de certo modo amparo – ao abrir o espaço do chat do Zoom para duas intervenções do público a serem adicionadas em cenas do espetáculo.

Após o breve, leve e até divertido prólogo – Ulrika Malmgren está em um ambiente futurista, caracterizada entre o kitsch e o cyberpunk, questionando se alguém a escuta – surge o vídeo de apresentação da obra (algo comum nas peças dos Satyros). Ali, imagens de cidades vazias contrastam com a voz estelar de David Bowie anunciando que saiu de sua cápsula, que as estrelas parecem bem diferentes hoje; que o planeta Terra é azul e que talvez tanto na vastidão do espaço sideral como do virtual, não há nada que possamos fazer.

Na cena inicial, Cabral evoca seus companheiros de cena – e aos nomes dos presentes entremeia ausências. Pessoas que se foram recentemente; queridas ao grupo, à arte brasileira e aos espectadores.

Os quadros individuais, no enquadramento de cada ator, emergem como blocos que compõem o cenário da encenação. Assim, Vázquez inteligentemente aproveita o elenco numeroso para que os rostos iluminados tornem-se moldura e dispositivo para as ações de cada movimento de A Arte de Encarar o Medo.

O diálogo que se estabelece entre vídeo e iluminação gera um resultado impressionante enquanto composição cênica-digital. Na maioria dos casos, o que salta aos olhos é a impressão de que se tratam de soluções simples – ou seja, mesmo em cenas que talvez exijam uma maior precisão técnica do intérprete (que é muitas vezes também operador de luz e câmera) esta não se sobressai, mantendo a organicidade de uma obra que sem dúvida traz consigo complexidades próprias à linguagem.

Quanto à isso, evidencia-se a assinatura dos Satyros neste trabalho – a expertise e as pesquisas do grupo se fazem presentes na utilização dos novos recursos. A Arte de Encarar o Medo possui uma dinâmica que, em sua fluência, captura e emociona o espectador. Neste sentido cabe pontuar que, ao observar as cenas individualmente, pode-se perceber certa oscilação em suas potências – o que talvez seja inerente à fragmentação proposta.

Em meio à construção deste caos dos tempos que correm, o roteiro de Cabral e Vázquez localiza a ação em um futuro distópico assustadoramente próximo. Há uma certa fragilidade no pacto ficcional das cenas que se avizinham do nosso cotidiano, como se ali a obra tentasse ser mais cinematográfica do que teatral. No geral, os tons da dramaturgia e interpretação alinham-se de formas diversas e funcionais às propostas de encenação dadas pelo enquadramento, iluminação e movimento de câmera.

Entre a velocidade vertiginosa dos acontecimentos e afetos contemporâneos e crônicas tristes do nosso tempo, A Arte de Encarar o Medo caminha por uma louca trajetória até que se chegue na esperança de que se faça carnaval. Em cena que funciona como síntese do espetáculo, projeções fazem com que Henrique Mello se torne cenário vivo da história; de seus marcos e seus terrores. Os Satyros inscrevem nestes rostos, corpos, vozes e virtualidades a distopia dos nossos tempos.

Fonte: Ruína Acesa

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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