BOB SOUSA | Carta à Cia. de Teatro Os Satyros

Queridos,

Assisti à gravação de Quase Todos consciente de que toda mediação modifica a experiência teatral. A câmera escolhe enquadramentos, aproxima detalhes, elimina outros e constrói um percurso visual diferente daquele vivido por quem compartilha o espaço da cena. Ainda assim, o registro preserva algo que considero essencial: a possibilidade de perceber a coerência da encenação como pensamento visual.

Minha condição de espectador foi atravessada por uma contradição que dialoga diretamente com o espetáculo. Eu estava ausente do acontecimento teatral, privado da presença dos atores e da relação construída com a plateia naquele instante único. Ao mesmo tempo, fazia-me presente por outro caminho, aquele que há anos orienta minha pesquisa sobre a construção da visualidade na cena. A distância imposta pela gravação não impediu o encontro com a obra. Apenas deslocou meu olhar para aspectos que talvez escapassem na experiência presencial. Passei a observar como o espaço, a luz, as imagens, os corpos e o tempo se organizavam para produzir significados que ultrapassam a própria narrativa.

Foi essa construção que permaneceu comigo depois que a gravação terminou.

Naturalmente, a dramaturgia conduz o olhar para a história dos quatro irmãos separados pelo tempo, mas a encenação amplia essa experiência ao transformar o palco em um território onde as lembranças deixam de funcionar apenas como tema e passam a constituir a própria matéria da cena. A memória não aparece apenas nas palavras de André Lu, Diego Rifer, Eduardo Chagas, Gabi Flores, Gustavo Ferreira, Ivam Cabral, Julia Bobrow, Marcia Dailyn, Tai Zatolinni e Thiago Ribeiro. Ela organiza a espacialidade, interfere na percepção do tempo e orienta a maneira como as imagens surgem e desaparecem diante do espectador.

A cenografia concebida por Thiago Capella evidencia essa opção. Não há interesse em reconstruir uma casa ou localizar a ação em um ambiente reconhecível. O espaço assume um caráter fragmentado, formado por superfícies, projeções e vazios que sugerem um território em permanente transformação. A sensação é menos a de observar um lugar físico do que a de atravessar diferentes camadas de lembranças.

Essa escolha encontra correspondência na dramaturgia de Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez. O texto não organiza a trajetória dos personagens como uma sucessão de acontecimentos destinados a explicar o presente. O interesse parece residir justamente naquilo que o tempo modifica, apaga ou torna irrecuperável. As relações familiares são construídas menos pelos acontecimentos do que pelas ausências, pelos silêncios acumulados e pelas tentativas, quase sempre insuficientes, de reorganizar aquilo que já não existe da mesma maneira.

A encenação acompanha essa perspectiva com delicadeza. Em nenhum momento procura traduzir visualmente cada informação do texto. Pelo contrário, preserva zonas de indeterminação que permitem ao espectador completar as imagens a partir da própria experiência. Há uma confiança na capacidade evocativa do teatro que atravessa toda a montagem.

Essa opção torna particularmente interessante a presença da inteligência artificial na narrativa. O recurso tecnológico não aparece como demonstração de inovação nem como simples comentário sobre o futuro. Sua função está integrada à própria organização da cena. O vídeo mapping, os painéis digitais, os desenhos de laser e as projeções contribuem para construir um espaço onde realidade, memória e imaginação deixam de ocupar compartimentos separados.

Quando um personagem compra lembranças que nunca viveu, a pergunta proposta pela dramaturgia ultrapassa a dimensão tecnológica. O espetáculo desloca essa questão para o campo da experiência humana. Se a memória pode ser fabricada, o que continua definindo nossa identidade? A encenação responde menos por argumentos do que pela forma como organiza visualmente essa instabilidade entre o vivido e o imaginado.

Também a iluminação participa dessa construção. Seu desenho acompanha as transformações emocionais da narrativa sem recorrer a efeitos espetaculares. Em determinados momentos, delimita pequenas áreas de permanência para cada personagem. Em outros, recompõe temporariamente uma ideia de convivência que logo volta a se desfazer. As mudanças de intensidade, direção e atmosfera ajudam a construir a percepção da passagem do tempo e do afastamento entre aqueles irmãos.

A trilha sonora original desenvolve procedimento semelhante. Em vez de comentar as emoções dos personagens, amplia a atmosfera criada pela encenação e estabelece um ritmo próprio para a experiência do espectador. Som e imagem caminham juntos na construção de uma memória que nunca se apresenta como algo definitivo, mas como um campo em permanente reorganização.

Outro aspecto que chamou minha atenção foi o equilíbrio entre os recursos tecnológicos e a presença dos atores. Em muitos espetáculos contemporâneos, as imagens digitais acabam impondo uma lógica de funcionamento que reduz o protagonismo dos corpos. Em Quase Todos, acontece justamente o contrário. As projeções encontram sentido porque permanecem vinculadas às ações dos intérpretes. A tecnologia amplia a percepção do espaço, mas nunca substitui a dimensão humana da cena.

Mesmo através da gravação, foi possível perceber o cuidado na organização das movimentações do elenco. Aproximações, afastamentos, cruzamentos e permanências desenham uma cartografia afetiva que acompanha o percurso dramatúrgico. O tempo deixa de ser apenas uma referência cronológica e passa a ser percebido como uma força que reorganiza continuamente as relações.

Talvez seja justamente essa articulação entre dramaturgia e visualidade que mais me interessou ao longo da montagem. O espetáculo não utiliza a cena para ilustrar um texto previamente concluído. As escolhas visuais produzem pensamento e ampliam questões que permanecem abertas até o final. A tecnologia, a cenografia, a iluminação, o desenho sonoro e o trabalho dos atores participam de uma mesma construção poética, sem que um elemento se sobreponha ao outro.

Enquanto assistia ao espetáculo, também me ocorreu que a fotografia teatral e a memória compartilham um mesmo gesto: ambas procuram preservar aquilo que já não pode ser vivido novamente. Ao longo da minha trajetória como fotógrafo da cena, compreendi que uma imagem nunca restitui um espetáculo. Ela registra um encontro irrepetível entre luz, corpo, espaço e tempo, ao mesmo tempo em que inaugura outra experiência, feita de lembranças, interpretações e ausências.

Em Quase Todos, essa aproximação se tornou ainda mais evidente. A encenação parece reconhecer que toda memória é uma construção, assim como toda fotografia também o é. Nenhuma delas reproduz integralmente o real. Ambas selecionam, recortam, silenciam e reorganizam aquilo que permanece. Talvez por isso a visualidade do espetáculo tenha encontrado em mim uma ressonância tão imediata: ela compreende que recordar não significa recuperar o passado, mas produzir novas imagens para continuar dialogando com ele.

Também por isso o espetáculo permaneça depois do fim. Não porque ofereça respostas para as questões que propõe, mas porque devolve ao espectador perguntas que continuam reverberando muito além da cena. Em um tempo em que acumulamos fotografias, imagens, arquivos e registros de tudo o que vivemos, Quase Todos lembra que nenhuma tecnologia é capaz de substituir aquilo que só existe na experiência compartilhada. É justamente nessa distância entre lembrar e viver que a encenação encontra sua maior potência. Pedindo ao tempo que venha sempre devagar.

Com admiração,

Bob Sousa

 

Bob Sousa é fotógrafo, pesquisador e doutorando em Artes Cênicas no Instituto de Artes da Unesp (com orientação da Profª Drª Simone Carleto Fontes), onde também obteve o título de mestre em Artes. É jurado de Teatro da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes – e de Artes Visuais do Prêmio Arcanjo de Cultura. Autor do livro Retratos do teatro (Editora Unesp).

 

Fonte: Bob Sousa

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