A delicada engenharia de ser homem

Uns anos atrás, durante uma sessão, um paciente meu, um homem de pouco mais de cinquenta anos, disse algo que ficou ecoando dentro de mim por muito tempo:

“Acho que estou sem pinto.”

Ele não falava do corpo, obviamente. A castração raramente acontece no corpo. Ela acontece, sobretudo, no narcisismo.

Meu paciente cresceu à sombra de um pai que “venceu”. Um pai que conquistou lugar no competitivo mercado financeiro, alguém que, aos olhos do filho, encarnava potência, inteligência e reconhecimento.

Esses pais extraordinários produzem um efeito curioso nos filhos: ao mesmo tempo em que inspiram, também se tornam uma medida quase impossível de alcançar.

Freud chamava isso de Ideal do Eu, aquela instância silenciosa que, de tempos em tempos, nos pergunta: é isso mesmo que você conseguiu ser?

A vida do meu paciente parecia atravessada por essa pergunta. Ele circulava em ambientes de poder, conversava com diretores de bancos, participava de reuniões importantes. Às vezes, me dizia, sentia-se “fodão”. Mas a vida, essa grande editora de ilusões, tem um talento particular para desmontar narrativas muito bem escritas.

Os negócios não viravam. O dinheiro não aparecia. As promessas ficavam suspensas no ar.

E então surgia aquela sensação difícil de nomear: estar sempre perto, mas nunca exatamente lá.

Este paciente me procurou quando se separou da mulher que chamava de “a mulher da minha vida”. Curiosamente, depois da separação, ela prosperou. Comprou apartamento, trocou de carro, reorganizou a vida.

O sucesso da ex-esposa passou a funcionar, para ele, como uma espécie de espelho invertido. Como se a vida estivesse sussurrando algo incômodo:

talvez o problema seja você.

Freud observou, em Luto e Melancolia, que às vezes não perdemos apenas pessoas. Perdemos também versões de nós mesmos.

Talvez, então, meu paciente tenha entrado em luto por um homem que imaginou ser. Mas há ainda uma terceira figura nessa história: sua filha, uma menina que, na época, acabava de entrar na adolescência.

Durante muito tempo, ela foi o lugar onde meu paciente ainda se sentia necessário. Há algo profundamente estruturante na experiência de ser importante para alguém. É uma das poucas coisas que realmente nos convencem de que existimos.

Só que as crianças crescem. E, quando crescem, reorganizam seus afetos com uma liberdade que pode ser brutal.

Um dia meu paciente me contou que havia falado com a filha por telefone.

“Oito minutos no sábado e sete minutos no domingo”, disse.

Falou isso com a precisão de quem contabiliza algo precioso. Fiquei pensando como, às vezes, os vínculos passam a ser medidos em minutos quando a vida começa a nos escapar.

A adolescência da filha trouxe um pequeno terremoto silencioso. A menina que antes orbitava o pai começou a passar mais tempo com a mãe. O corpo muda. A vida muda.

E um dia ele disse algo que me impressionou muito:

“Acho que estou virando um intruso na vida dela.”

Talvez essa seja uma das experiências mais delicadas da paternidade: perceber que os filhos, lentamente, deixam de precisar de nós.

Depois, entre uma sessão e outra, meu paciente começou a falar em “desaparecer”. Não como decisão, mas como pensamento. Disse que não fazia isso por causa da filha. Mas também mencionou algo curioso: uma espécie de limite moral imaginário que o impede de atravessar essa fronteira.

A vida, às vezes, se sustenta em fios muito finos.

Um dia, ele trouxe para a sessão uma constatação que parecia surpreendê-lo: cinco anos após a separação, nunca mais havia feito sexo com ninguém. Nem sequer beijado alguém.

Freud sabia que o desejo humano nunca é apenas biológico. Ele carrega culpa, vergonha, ideal, fantasia. Quando a autoestima está ferida, até o prazer pode se transformar em prova de fracasso.

Mas, no meio de tanta dor, meu paciente disse algo que considero um gesto de grande delicadeza psíquica.

Falando da filha, comentou:

“Não quero fazer com ela o que minha mãe faz comigo.”

Essa frase, para mim, continha uma pequena vitória. Porque, apesar de toda a melancolia, ele ainda se preocupa em não transformar sua dor em cobrança afetiva.

Ser homem, percebo cada vez mais no consultório, é uma tarefa muito mais frágil do que imaginávamos. Durante muito tempo, a masculinidade foi construída sobre pilares estreitos: potência, sucesso, dinheiro, controle.

Quando um desses pilares cai, muitos homens sentem que a própria identidade desmorona.

Talvez ser homem não seja vencer como o pai. Talvez seja sobreviver à queda do ideal. Ou talvez Freud tenha apenas percebido algo que todos nós acabamos descobrindo tarde. A vida psíquica começa quando aceitamos que não seremos o herói da história.

A partir daí, curiosamente, pode nascer algo mais raro: um ser humano possível, quiçá.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
Post criado 2031

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