SATYRIANAS 2026 | O futuro em cena

Em 2007, colocamos uma lona no meio da Praça Roosevelt e convidamos 78 dramaturgos a ocupar o tempo. Cada um teria uma hora. Parece simples quando escrevo assim, mas era uma pequena desmedida: durante 78 horas, um texto daria lugar ao outro, atravessando as madrugadas, as manhãs, as tardes e as noites. A cidade seguiria com seus compromissos, alguém precisaria dormir, alguém sairia para trabalhar, e nós continuaríamos ali, oferecendo uma história a quem chegasse.

Foi assim que nasceu o DramaMix, dentro das Satyrianas. Lembro da alegria de ver tanta gente colocando suas ideias na roda, confiando a outros artistas palavras que, até pouco antes, talvez só existissem numa mesa de trabalho. Sob aquela lona, os textos encontravam vozes, respiração, corpos. Encontravam também o imprevisto, que é uma das coisas mais bonitas que o teatro pode oferecer a quem escreve.

Muitas daquelas pequenas peças cresceram, ganharam outras montagens, seguiram caminhos que já não dependiam de nós. Gosto de pensar nisso. Um festival termina, desmontamos as estruturas, recolhemos o que ficou espalhado, tentamos recuperar o sono. Mas alguma coisa continua trabalhando depois que vamos embora. Um encontro rende outro, um ator guarda uma frase, alguém resolve levar adiante aquilo que começou numa madrugada na praça.

Desde então, o DramaMix segue vivo. Neste ano, porém, aconteceu uma coisa nova para mim: participei pela primeira vez como autor. E logo, vejam só a petulância, com três textos. Rodolfo e eu tínhamos algumas escritas guardadas e decidimos abrir as gavetas: O menino sem espelho (solo para um ator viado), escrito com João Emanuel Carneiro; Zero; e Antes que Apague, a partir de Natalia Timerman. Depois de tantos anos ajudando a criar as condições para que outros autores vissem seus textos em cena, chegou a minha vez de sentar e esperar.

Descobri que essa espera tem um desamparo particular. Conhecemos as palavras, sabemos de onde vieram, lembramos das conversas e das dúvidas que as acompanharam. Ainda assim, quando um ator começa a dizê-las, já não podemos conduzir o que acontece. Fiquei ali, na plateia, com uma intimidade enorme com aqueles textos e a sensação de que iria conhecê-los pela primeira vez.

Na sexta-feira, Carmo Dalla Vecchia me fez chorar com O menino sem espelho. Chorei com aquele menino, com sua procura, com o que Carmo encontrou nele e me devolveu. Existem coisas que escrevemos sem alcançar inteiramente. Então um ator chega, demora um pouco numa palavra, encontra um silêncio, e alguma coisa que estava escondida até de nós aparece.

Carmo é um dos grandes atores de sua geração. Enquanto trabalhávamos no texto, ele também estava em Forever Young, com direção de Jarbas Homem de Mello, e estreava Meno Male, dirigido por Léo Stefanini. A televisão o tornou conhecido de muita gente, mas acompanhar seu trabalho de perto foi reconhecer a profundidade de seu compromisso com o teatro. Um compromisso feito de presença, de estudo, de disponibilidade para entrar numa história e se deixar afetar por ela.

No domingo, foi a vez de Elen Londero e Bartholomeu de Haro apresentarem Zero. Que bonito ver Elen e Barthô em cena. Havia tanta força no encontro dos dois com o texto que, em alguns momentos, esqueci que tinha participado de sua escrita. Estava simplesmente assistindo, levado por eles. E vou me permitir a falta de modéstia: achei Zero potente. Talvez também seja esse o presente dos atores aos autores. Permitir que a gente se surpreenda com o que escreveu.

Hoje, às oito da noite, Mel Lisboa e Rafa Maia apresentarão Antes que Apague, e teremos Natalia conosco. Escrevo antes desse encontro, ainda tomado pelos dois anteriores. Conheço um pouco da emoção que me espera, mas felizmente não conheço tudo. Depois de tantos anos de teatro, continuo gostando desse instante em que as pessoas começam a chegar e o que ensaiamos ainda pode se transformar.

Vamos chegando ao fim de mais uma edição das Satyrianas. Estou cansado, emocionado, cheio de imagens que vou levar algum tempo para compreender. Penso naquela lona de 2007 e nas palavras que atravessaram suas madrugadas. Agora, tantos anos depois, algumas das minhas também encontraram abrigo ali. E eu, que ajudei a inventar essa roda, pude me sentar por um momento e descobrir o que ela ainda tem para me dar.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
Post criado 2122

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo