OPINIÃO | O desejo entre as flores

Branca Flor é uma jovem que sua comunidade transforma em santa. João do Café é um trabalhador da lavoura. O amor entre os dois perturba uma ordem na qual a devoção parece exigir que uma mulher renuncie à própria humanidade. Em Branca Flor – Auto do Café, o Grupo Paiol, de Arapongas e Ribeirão Claro, no Paraná, aproxima a cultura do campo de uma pergunta íntima e política: como escolher a própria vida quando os outros já decidiram quem devemos ser?

Inspirado na obra do cantor e compositor Luiz Carlos Paraná, nascido em Ribeirão Claro, uma das cidades que deram origem ao coletivo, o espetáculo mantém um vínculo afetivo com o território de sua criação. A música aproxima a trajetória do artista das memórias e paisagens que também atravessam a história do Paiol. Nesse encontro, o grupo encontra matéria para sua pesquisa e uma maneira de interrogar o mundo a partir das próprias raízes.

A história se organiza como um melodrama, com sua disposição para os sentimentos intensos e para o embate entre o desejo e as forças que procuram impedi-lo. Um material assim correria o risco de uma abordagem ingênua, até pueril, sobretudo se a idealização das personagens e a evocação do universo rural bastassem à encenação. O Paiol, porém, encontra espessura nesse território. A boa articulação dramatúrgica e a pesquisa de linguagem do grupo permitem que a emoção carregue contradições, que a beleza comporte inquietação e que o amor revele alguma coisa sobre o mundo que o cerca.

A dramaturgia de Pedro Ziroldo é decisiva nesse processo. Seu trabalho parte da obra de Thiago Bechara, autor da biografia de Luiz Carlos Paraná e de uma versão teatral dedicada à trajetória do compositor. A condição de santidade atribuída a Branca Flor oferece uma imagem poderosa dos mecanismos de controle sobre a vida das mulheres. Colocar alguém num altar também pode ser uma maneira de exigir sua imobilidade. À mulher venerada, pede-se que corresponda a uma imagem. À mulher que deseja, cobra-se uma explicação. O conflito ganha força justamente porque a violência se aproxima revestida de cuidado, de respeito, de uma aparente intenção de proteger.

É nessa ambiguidade que o espetáculo encontra seu alcance crítico. O vínculo com a cultura do campo dá chão e memória à narrativa, enquanto a elaboração alegórica permite reconhecer relações que atravessam outros lugares e outros tempos. As referências populares oferecem formas de pensar a experiência humana, seus afetos e suas interdições. Existe uma compreensão de que a tradição também guarda conflitos, e de que revisitá-la exige escutar aquilo que ficou encoberto.

Adelvane Néia conduz esse material com uma direção precisa. A montagem tem unidade, e sua ambição poética encontra uma organização cênica capaz de sustentar o conflito e favorecer o trabalho dos intérpretes. Essa segurança importa especialmente num melodrama: é preciso acolher a intensidade dos sentimentos e encontrar a medida que lhes dê credibilidade. A direção compreende essa exigência e cria condições para que o público se aproxime da história sem que suas questões se diluam numa comoção fácil.

Francielly Veiga, Juscileia Amaral, Heriveuto Souza, Pedro Ziroldo e Michele Nakajima formam um elenco de atuações consistentes, cuja força está também na qualidade do trabalho coletivo. As atuações dão consistência humana à dimensão simbólica da peça. São os atores que fazem aquelas ideias adquirirem peso, afeto e presença, permitindo que reconheçamos pessoas onde a narrativa poderia oferecer apenas figuras exemplares. O conjunto revela uma linguagem compartilhada, construída na convivência e no exercício de fazer teatro em grupo.

A equipe musical merece igual destaque. Com direção musical de Rafael Michelato e a participação dos músicos André Garcia e Claudinei Filho, a montagem encontra na obra de Luiz Carlos Paraná uma importante fonte de expressão e sua relação com a memória do campo. O cuidado desse trabalho participa da força da montagem. A música oferece uma maneira de alcançar experiências que a palavra, sozinha, talvez não conseguisse comunicar com a mesma delicadeza.

Também é preciso reconhecer o que significa um grupo como o Paiol existir há mais de uma década e se estruturar no interior do Paraná. A continuidade permite amadurecer uma pesquisa, aprofundar relações entre artistas e construir vínculos com o público. Manter esse trabalho é contribuir para que uma cidade tenha vida teatral própria, com suas perguntas, suas escolhas e sua capacidade de produzir pensamento. A qualidade de Branca Flor dá uma expressão concreta à importância dessa permanência.

A participação recente do grupo nas Satyrianas, festival promovido anualmente pela Cia. de Teatro Os Satyros, tornou tudo isso especialmente visível. Entre as 400 atrações da programação, Branca Flor tinha sua apresentação agendada na Praça Roosevelt. A chuva obrigou a transferi-la para a recepção da SP Escola Superior de Teatro. Nesse espaço de passagem, com o público tão próximo dos artistas, aconteceu algo que merece ser lembrado.

A recepção ficou abarrotada de gente, e o Paiol conquistou o público logo nos primeiros minutos. Aos poucos, aquele lugar cotidiano ganhou outra vida: as pessoas se entregaram à história, à música, à beleza impressionante da peça. Foi um verdadeiro acontecimento, desses que nos fazem reconhecer, mais uma vez, a capacidade do teatro de reunir desconhecidos em torno de uma experiência que passa a pertencer a todos.

Ao final, os aplausos de um público emocionado coroaram uma apresentação que, para mim, esteve entre as melhores do festival. Penso naquele encontro como um pequeno milagre: uma chuva que muda os planos, uma recepção cheia, um grupo que sabe o que faz e uma história que encontra quem a escute. Branca Flor fez daquele imprevisto uma lembrança que levaremos conosco.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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Um comentário sobre “OPINIÃO | O desejo entre as flores”

  1. Foi intenso, maravilhoso e inesquecível, esse momento! Gratidão imensa por fazer parte das Satyrianas!!!!”Continuamos, continuamos!!!!”

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