Quase todos choram – mas nem todos explicam o choro

Existe uma diferença quase imperceptível – e talvez decisiva – entre o drama e o melodrama. Às vezes, ela não está no que se conta, mas no modo como se olha. No gesto que acompanha a dor. No silêncio que se permite permanecer.

“Quase Todos”, à primeira vista, poderia ser facilmente confundido com um melodrama. Há ali todos os elementos que, historicamente, sustentaram esse tipo de narrativa: uma família atravessada pela pobreza, um pai que falha, uma mãe que sustenta, filhos que partem, abandonos, perdas, violências que não se dizem por inteiro. Há fome. Há desejo de fuga. Há desencontros que se acumulam como pequenas tragédias domésticas.

Mas algo, desde o início, desloca tudo.

O melodrama precisa de direção. Ele conduz o espectador pela mão. Organiza a dor em um percurso reconhecível. Diz, ainda que de forma sutil: “é aqui que você deve sofrer”, “é agora que você deve se indignar”, “este é o culpado”, “este é o inocente”. O mundo, mesmo quando cruel, permanece inteligível. Há sempre uma espécie de promessa. De justiça, de reparação, de sentido.

Em “Quase Todos”, essa promessa não se cumpre. Porque a dor não se organiza. Ela é habitada.

As personagens não se oferecem como exemplos, nem como advertências. Elas existem. E existir, ali, é quase sempre insuficiente. O pai não é um vilão. É um homem que não soube. A mãe não é uma santa. É alguém que inventa formas de atravessar o impossível. Os filhos não são heróis nem traidores. São variações de uma mesma tentativa. Cada um à sua maneira, cada um com o seu preço.

Talvez seja isso que faz da peça um drama.

No drama, não há garantia de que a experiência vá se transformar em aprendizado. Às vezes, ela apenas insiste. Retorna. Se repete em outras formas, em outros corpos, em outros tempos. Não há catarse no sentido clássico. Há reconhecimento. E, muitas vezes, um reconhecimento incômodo, porque não aponta saídas.

Há uma cena – ou melhor, um tipo de gesto – que sintetiza isso. O “almoço das rosas” acontece quando a falta não é nomeada como falta, mas transformada. Quando a miséria não se expõe como denúncia, mas se atravessa como invenção. Não para negar o real, mas para torná-lo habitável. Esse pequeno deslocamento impede que a dor se transforme em espetáculo. Ela continua ali, mas já não pede aplauso.

O melodrama precisa do excesso. O drama, muitas vezes, se sustenta na contenção.

Em “Quase Todos”, nos aproximamos menos do que explode e mais daquilo que não consegue explodir. Das frases interrompidas. Dos reencontros que não se completam. Das cartas que não recebem resposta. Das memórias que falham. Talvez porque haja algo profundamente humano nisso. A constatação de que nem tudo encontra forma, nem tudo encontra linguagem, nem tudo encontra o outro.

E talvez seja por isso que eu sinta que a peça se aproxima tanto do nosso tempo.

Hoje, o melodrama não desapareceu. Ele mudou de lugar. Está nas redes, nos discursos de superação, nas promessas de que tudo pode ser resolvido com a dose certa de coragem, disciplina ou método. Está nos sistemas que organizam a dor para que ela seja produtiva, vendável, administrável. Está nas narrativas que transformam a experiência em conteúdo.

“Quase Todos” olha para esse mundo — e recusa essa lógica.

Ainda não temos uma solução tecnológica para a memória. Não há método que resolva o luto. Não há narrativa capaz de dar conta do que se perde quando alguém vai embora. Ou quando alguém fica.

Ficar, aliás, talvez seja uma das palavras mais radicais da peça. Ficar não como gesto heroico, mas como condição. Ficar onde dói. Ficar onde sustenta. Ficar mesmo quando não há reconhecimento.

O melodrama costuma recompensar quem fica. O drama apenas mostra o que isso custa. O melodrama quer que a gente chore. O drama – quando acontece de verdade – nos faz entender, mesmo sem palavras, por que choramos.

Talvez o que nos move ao escrever este texto seja justamente a tentativa de não abandonar a experiência em nome da análise. Pensamos, mas tentamos não esfriar. Organizamos ideias, mas procuramos não me distanciar daquilo que as produziu.

Há, para mim, uma coerência possível entre o que digo e a forma como digo. Como se a própria escrita recusasse transformar a experiência em explicação excessiva. Como se também ela soubesse que existem coisas que só podem ser atravessadas, não resolvidas.

No fundo, percebo que, ao pensar a peça, acabo me aproximando do mesmo gesto que ela propõe: não simplificar, não dramatizar além do necessário, não oferecer saídas fáceis. Sustentar.

E talvez seja isso que, hoje, me interessa preservar.

Porque, num tempo em que tudo tende a se transformar em opinião rápida, em conteúdo, em resposta imediata, ainda me interessa escrever – e pensar – a partir desse outro lugar. Um lugar em que a linguagem não resolve. Mas acompanha.

Foto: Andre Stefano

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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