Quando começamos a criticar as boas ações…

A SP Escola de Teatro é um oásis no mundo cultural. Uma instituição sólida, com dez anos, já, e que tem formado toda uma geração de artistas e pensadores não só do teatro, mas de toda a cadeia da indústria criativa. Um sonho quase impossível de ter se tornado realidade.

O início dessa história é bem conhecido de todos. José Serra, prefeito da cidade, se aproxima do movimento teatral da Praça Roosevelt e, a partir deste encontro, é pensado um centro de formação das artes do palco. Os Satyros atuavam na comunidade do Jardim Pantanal, mantendo um núcleo de formação, preparando profissionais das áreas técnicas do teatro, especialmente som e luz. Foi quando o prefeito da cidade ficou sabendo do projeto e quis ampliá-lo, criando a nossa SP Escola de Teatro.

Poderia ter sido um projeto exclusivamente dos Satyros. Mas não foi. Cientes de que havia surgido um movimento cultural potente na Praça Roosevelt, começamos a trabalhar, desde o início, mesmo, com a ideia do coletivo. Assim, tudo o que aconteceu a partir de então foi sempre decidido de maneira comunitária. Tudo. Da escolha do nome do projeto, da formação dos conselhos, da estrutura organizacional, dos valores dos salários, tudo! E me orgulho demais dessa empreitada. É, seguramente, uma das coisas mais incríveis que realizei na minha vida.

Desde o início, também, todas as informações sobre o nosso projeto foram públicas, do orçamento aos nossos salários. Fácil, bem fácil obter essas informações aqui na internet.

No escopo dos nossos sonhos, lá no início, sempre tivemos definidas ações muito objetivas. Especialmente porque todos nós, que nos constituímos em associação, sempre estivemos do outro lado das relações políticas. E, ao estruturarmos um projeto como esse, sabíamos que nos tornaríamos vidraça. E, por isso mesmo, nada do que aconteceria a partir daí poderia conter fagulhas de descrédito.

Começamos, por exemplo, criando projetos de acessibilidade. A bolsa oportunidade foi um deles. Os nossos estudantes receberiam para estudar em nossa instituição. Bastasse que comprovassem a necessidade do auxílio e ele seria concedido. Sempre por meio de editais.

Outra coisa fantástica que criamos foi uma coordenação de projetos internacionais. Através deste braço da escola foi possível fazer intercâmbios com estudantes de países como Alemanha, Cabo Verde, Chipre, Bolívia, Cuba, Finlândia, Inglaterra, Moçambique, Suécia, Suíça, entre outros. Estudantes nossos viajaram para esses países com tudo pago: passagens aéreas, hospedagem, alimentação e, ainda, um pequeno per diem para cobrir pequenas despesas como bilhetes de espetáculos, entradas para museus etc.

Isso não existe em outras instituições no Brasil e poucas no mundo têm olhares similares. Somos pioneiros e únicos. E tudo isso é fruto de muito, muito trabalho.

A Adaap, que gere o projeto da SP Escola de Teatro, é uma instituição privada. Não somos uma instituição pública. Isso é muito importante ressaltar. E, parte importante desse trabalho todo – bolsas oportunidades e intercâmbios internacionais – sequer veio de dinheiro público brasileiro. São acordos que firmamos com instituições internacionais.

Então, quando encontramos reclamações de nossos estudantes em relação a benefícios que recebem, tratando isso como direito, dá um desânimo tão grande. Porque parece que nossos esforços para propor saídas para este mundo tão despedaçado se tornam vãos.

Não, as bolsas oportunidades não são direitos dos nossos estudantes. Antes, são benefícios conquistados com muito, muito trabalho das equipes que gerenciam os vários projetos da SP Escola de Teatro. Podem ou não ser oferecidas, dependendo de suas captações, que podem vir de dinheiro público ou privado, do Brasil ou do exterior.

Nosso último projeto surgiu agora neste isolamento social. E vejam só que lindo. A partir dos nossos conselhos, criamos uma bolsa de acesso digital. Tanto na SP Escola de Teatro quanto na MT Escola de Teatro distribuiremos tablets e dados de internet para os estudantes que necessitarem desses benefícios. Mais bonito da história é que esse dinheiro, na maioria, veio de doações dos próprios conselheiros. Sim, do bolso deles.

Isso é bonito demais, é humano demais. E se tornou realidade porque não ficamos parados no tempo. O mundo que nos interessa é o da construção, aquele onde o futuro possa nascer com o mínimo de dignidade. O resto, neste momento, e infelizmente, é puro silêncio.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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