Phedra D. Córdoba: Quando a memória chega antes do arquivo

Ah, o tempo! Existe uma estranha sabedoria em seus movimentos. Às vezes, ele nos entrega exatamente aquilo que procurávamos, mas apenas quando já não precisamos mais.

Hoje dei o “sim” definitivo para a publicação de Phedra D. Córdoba: Uma atriz para o fim do mundo, o livro que escrevi para a coleção Vidas Sequestradas, da Editora O Sexo da Palavra. Depois de conviver durante tanto tempo com a dúvida, com as lembranças e com o medo de não conseguir fazer justiça à dimensão daquela mulher, a história finalmente encontrou seu ponto de repouso.

Ou assim eu imaginava.

Pouco depois fui organizar um armário no meu gabinete, na SP Escola de Teatro. Daqueles gestos burocráticos que fazemos sem imaginar que o cotidiano também guarda suas arqueologias.

Durante muito tempo acreditei que estivessem nas mãos de outra pessoa. A morte de Phedra foi um acontecimento grande demais para que alguém conseguisse organizar qualquer coisa. Ela deixou um apartamento, dois gatos e um universo inteiro de histórias. Nós, seus amigos, entramos naquele espaço não como herdeiros, mas como quem tenta impedir que uma vida desapareça. Cada um levou consigo um pequeno fragmento. Um objeto. Um documento. Uma fotografia. Era menos uma divisão de bens do que uma tentativa desesperada de repartir a ausência.

Os cadernos seguiram um caminho que eu desconhecia. Passaram por mãos generosas, por projetos que não aconteceram, por pessoas que imaginaram outros livros possíveis. Em algum momento, alguém devolveu aquele material à SP Escola de Teatro para que chegasse até mim. Como eu não estava e a notícia nunca me alcançou, os cadernos foram guardados em um armário do meu gabinete. Permaneceram ali durante anos, em silêncio, até que o tempo resolvesse trazê-los de volta.

O curioso é que, enquanto escrevia o livro, aqueles cadernos voltavam à minha lembrança de tempos em tempos. Pensei em procurá-los. Imaginei que talvez ainda existissem em algum lugar. Depois deixei essa ideia de lado e segui escrevendo apenas com aquilo que a memória havia preservado.

Hoje entendo que foi um presente.

Se aqueles cadernos estivessem sobre minha mesa durante a escrita, talvez eu jamais tivesse encontrado a coragem de terminar o livro. Porque o que existe ali é um continente inteiro. Cadernos escritos à mão, numa caligrafia delicada, reunindo episódios, pensamentos, lembranças e uma vida que transborda qualquer tentativa de organização.

Phedra nunca foi uma mulher que coubesse numa definição. Muito menos num livro.

O livro que escrevi nunca pretendeu ser a biografia definitiva de Phedra. É o relato dos quinze anos que ela viveu conosco. Da Phedra que atravessou a Praça Roosevelt, Os Satyros, nossos afetos, nossas perdas e nossas transformações.

É uma memória compartilhada, construída muito mais pelo convívio do que pelos documentos.

Os diários contam outra história. Contam muitas outras. E, agora, isso me alegra profundamente.

Vivemos numa época obcecada pela ideia de obra definitiva, de verdade final, de narrativa capaz de explicar uma existência inteira. Mas talvez algumas vidas nos ensinem justamente o contrário. Talvez existam pessoas cuja maior fidelidade só possa ser alcançada pela multiplicidade.

Phedra era uma dessas pessoas.

Hoje percebo que a memória e o arquivo não disputavam espaço. Estavam apenas esperando o momento certo para conversar.

O livro já podia nascer porque não precisava carregar sozinho o peso de toda uma vida.

Os cadernos permanecem aqui, escritos pela própria mão de Phedra, como um tesouro inesperado. Não para corrigir o que foi escrito, mas para lembrar que nenhuma existência cabe inteiramente naquilo que contamos sobre ela.

Ainda bem.

Porque algumas pessoas continuam escrevendo suas histórias mesmo depois que partem. E talvez esse seja o nome mais bonito que a permanência pode receber.


Foto:
Bob Sousa

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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