Só agora consigo falar do Orelha, o cachorro. E talvez falar seja um verbo generoso demais para o que ainda é, em mim, um nó. Sei pouco dessa história. E sei por escolha. Não vi vídeos, não procurei imagens, não me deixei capturar pelos detalhes mais explícitos da crueldade. Há tempos em que a gente precisa se proteger para continuar de pé. Porque este tempo, especialmente, tem sido pesado demais.
Mas também sei que não dá para viver numa toca. Que fechar os olhos não é, necessariamente, um gesto ético. O mundo insiste em bater à porta, mesmo quando a gente pede silêncio. E então venho aqui com as minhas dores, sem saber exatamente o que dizer. Porque há indignações que não cabem num texto. Não cabem numa crônica. Não cabem, honestamente, numa vida inteira.
O que sei é suficiente para doer. Um cachorro. Um corpo frágil. Uma violência sem metáfora possível. Garotos protagonizaram essa história. Garotos que não são personagens abstratos nem fruto de um delírio coletivo. São responsáveis. São infratores. São criminosos. E precisam responder pelo que fizeram. Não porque o castigo nos console – não, não consola –, mas porque a ausência de responsabilização corrói tudo em volta.
Dito isso, a reflexão não pode parar aí. Nunca para. Vivemos num país em que a impunidade cresce como mato alto. Ocupa espaços, normaliza o absurdo, anestesia consciências. Um país que se acostumou a pular de horror em horror como quem muda de canal, sem elaborar nada, sem aprender quase nada. Onde a violência vira estatística, espetáculo ou ruído de fundo.
Orelha não é estatística. É nome. É vida interrompida. É a lembrança incômoda de que algo em nós – como sociedade, como pacto, como humanidade – está profundamente adoecido. A violência contra um animal nunca é apenas sobre o animal. Ela fala de uma pedagogia do abandono, de um fracasso coletivo, de uma brutalidade que começa muito antes do ato final. Opera naquele lugar onde, sabemos, a sociedade já faliu. E, diante disso, não há saída fácil.
Talvez por isso doa tanto. Porque não é um caso isolado. É sintoma. É espelho. E espelhos, quando mostram demais, a gente prefere evitar.
Escrevo sem conclusões. Escrevo porque o silêncio também pesa. Escrevo porque, apesar de tudo, ainda acredito que nomear a dor é um modo – mínimo, imperfeito – de resistir a ela. Que lembrar do Orelha é recusar o esquecimento rápido, essa segunda morte que o mundo oferece com tanta eficiência.
Hoje, não trago apenas indignação. Trago cansaço. Trago o desejo insistente – quase ingênuo, eu sei – de que a vida, qualquer vida, valha mais do que a crueldade que tentam impor a ela.
