OPINIÃO | Uma noite de cinema finlandês na Praça Roosevelt

Ontem, sexta-feira (6/11), o Cine Bijou, na Praça Roosevelt, apresentou três curtas finlandeses dirigidos por Juuso Timonen. Water Chestnut e The Ritualist são produções do Vauriomania, coletivo de múltiplas linguagens fundado em Helsinque por Timonen, ator e cineasta, e Jonnakaisa Risto, atriz, roteirista e diretora artística do grupo. Mixed Sauna é uma produção da ELO Film School.

O Vauriomania, que atua no teatro e no cinema, se apresenta como um “coletivo de arte grotesca dos becos escuros de Helsinque”. Nos três filmes, a estranheza sabe o caminho de casa. Encontra um casal à mesa, um homem entre amigos e uma pessoa que precisa reaprender a passar pela própria rua.

Em Water Chestnut (Vesikastanja), um casal na casa dos trinta janta em casa. Enquanto um dos dois conta o que aconteceu na festa da noite anterior, a conversa toma um rumo inesperado e chega à possibilidade de terem filhos. Gosto da desproporção entre o tamanho da pergunta e o lugar onde ela aparece. É preciso continuar comendo enquanto se imagina uma vida inteiramente diferente.

Em Mixed Sauna (Sauna Mista), Mikko passa o fim de semana na casa de campo de Hanna, sua nova companheira, e quer causar boa impressão nos amigos dela. Ao entrar na sauna, descobre que é o único de roupa de banho. Seus esforços para vencer a timidez só pioram a situação. A graça é que Mikko fez o que, em muitos outros lugares, passaria por um gesto de discrição. Ali, é justamente o que faz todos repararem nele.

Em The Ritualist, depois de viver uma experiência traumática numa rua perto de casa, uma pessoa volta ao local à noite e realiza rituais na tentativa de mudar sua relação com aquele espaço. A rua continua ali, a poucos passos de casa, mas atravessá-la passou a exigir um esforço que ninguém, ao ver alguém passar por ali, seria capaz de medir. O filme acompanha essa tentativa de recuperar um pedaço da vida cotidiana.

 

O que se conta de si

Nesta semana, almocei com Timonen e, à mesa, soube de suas restrições alimentares. Depois dessa conversa, fiquei pensando de outro modo no jantar de Water Chestnut. Para quem precisa se informar sobre o que pode comer, aceitar um prato é também um gesto de confiança. No Brasil, onde oferecer comida é uma maneira tão corrente de acolher alguém, essa confiança pode depender de uma pergunta que parece pequena a quem cozinhou. O que foi posto na panela?

Existe um horror particular na possibilidade de adoecer por causa de algo servido com afeto. E o filme me fez pensar em como, à mesma mesa, uma pessoa pode estar pronta para falar do futuro enquanto a outra ainda precisa saber se pode comer o que tem diante de si.

Em outra conversa, Timonen me contou que nasceu no interior da Finlândia. Fiquei imaginando o rapaz que ele foi, convidado a passar um fim de semana de verão com gente que mal conhecia, tentando descobrir, pouco antes de abrir a porta da sauna, o que fazer com a roupa de banho. É uma cena que inventei para ele depois de conhecer Mikko. Talvez eu tenha gostado tanto de imaginá-la porque conheço o esforço de parecer à vontade quando todos à nossa volta parecem ter aprendido alguma coisa que nos escapou.

No Brasil, onde um mesmo corpo pode ser celebrado num lugar e censurado ao dobrar a esquina, a situação de Mikko me parece familiar. A liberdade que me interessa ali é também a de ficar vestido, se for assim que se consegue estar entre os outros.

Diante de The Ritualist, fui ainda mais longe. Imaginei que Timonen pudesse morar perto daquela esquina e que a história talvez fosse dele. A esquina me pareceu íntima a esse ponto. Numa cidade como São Paulo, basta perguntar a duas pessoas pelo mesmo endereço para ouvir duas descrições diferentes. Para uma, aquela rua faz parte do caminho mais curto para casa. A outra sabe o ponto exato em que costuma apertar o passo.

O que me comove no filme é que a pessoa volta àquele lugar por vontade própria. Dessa vez, pode escolher a hora de chegar, o que fazer ali, quanto tempo ficar. Pensei na psicanálise. Às vezes, alguém volta a uma lembrança que já contou tantas vezes e, no meio do relato, se demora num detalhe pelo qual sempre passava depressa. A lembrança é a mesma, mas agora a pessoa pode ouvi-la de outro lugar. Em The Ritualist, essa diferença ganha a forma concreta de um retorno à rua.

O tom confessional que encontro nos três filmes tem a ver com a delicadeza de nos deixar perto do que seria mais fácil disfarçar. A mesa guarda a pergunta que altera o jantar. A sauna expõe a vergonha que Mikko tenta esconder. A esquina conserva, para uma pessoa, algo que quem passa por ali talvez jamais perceba. As conversas com Timonen me deram vontade de imaginar o que, daquelas cenas, poderia ter sido vivido por ele. Na sala do Cine Bijou, pude ver quanto daquilo já havia sido vivido, de outras maneiras, por nós.

A plateia recebeu os filmes com o mesmo calor humano que eles trouxeram à sala. No bate-papo depois da sessão, toda a conversa girou em torno da experiência humana dos filmes. As pessoas estavam visivelmente emocionadas e queriam falar daquelas vidas, do que haviam reconhecido nelas, das perguntas com que tinham ficado. Quando chegou a hora de ir embora, ninguém parecia com pressa de se levantar. Sempre cabia mais uma pergunta.

Acho bonito quando o cinema faz isso. A gente chega para ver três filmes de um país distante e, quando as luzes se acendem, quer ficar mais um pouco na companhia das pessoas com quem acabou de vê-los.

*Instagram do grupo Vauriomania: https://www.instagram.com/vauriomania/
** Na foto, Juuso Timonen e Jonnakaisa Risto

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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