O futuro, às vezes, pede trabalho

Eu gosto das histórias que não começam como promessa. Confio mais naquelas que nascem da necessidade. Uma parede por reparar, um orçamento curto, um dia qualquer. Até que alguém atravessa esse cotidiano sem anúncio. Chega sem fazer alarde. E, quando percebemos, já ficou.

Ele está ao meu lado. Emerson. Mas, quando chegou, era apenas o Alemão do Grajaú, um garoto de 17 anos que trazia nas mãos uma habilidade prática e nos olhos alguma coisa mais difícil de nomear: uma espécie de urgência silenciosa. A Praça Roosevelt, naquele tempo, não era o que é hoje. Era um território esquecido, duro, como se a cidade tivesse decidido não olhar mais para si mesma. E nós estávamos ali, nos fundos da igreja da Consolação, tentando inventar um lugar onde ainda não havia chão.

Ele veio indicado por um porteiro, vizinho dele. Como tantas coisas importantes da vida vêm: por alguém que simplesmente diz “conheço um menino”. Fez o trabalho com precisão. Quando terminou, recebeu o combinado. E então, segurando o dinheiro, com um cuidado que não era só de quem segura notas, mas de quem segura o próprio destino por alguns segundos, perguntou:

“Vocês não teriam como arrumar um emprego para mim? Eu queria ter um futuro.”

Há frases que nos atravessam. Aquela ficou. Não porque fosse extraordinária, mas justamente porque não era. Porque ali estava condensada uma evidência brutal. O futuro, para alguns, não é uma linha que se segue. É um pedido.

Não tínhamos como. E talvez tenha sido esse “não temos como” que mais nos doeu. Mas ele já estava indo embora quando algo – que não sei se era intuição, responsabilidade ou simples afeto – nos fez chamá-lo de volta. Às vezes, tudo o que muda uma vida é esse gesto mínimo. Esses de não deixar alguém ir embora completamente.

E então Emerson ficou.

O que veio depois não cabe bem na lógica dos currículos. Ele fez de tudo. Limpou, organizou, quebrou, refez. Pintou paredes e, sem saber, foi ajudando a pintar também o que viríamos a ser. Operou som, operou luz. Um dia, começou a desenhar a luz dos espetáculos. E ali, onde antes havia apenas a execução, começou a surgir criação. Tornou-se técnico. Tornou-se essencial. Andou de avião pela primeira vez com a gente, atravessou oceanos, conheceu países, percorreu a Alemanha de norte a sul, além de tantas cidades Brasil afora, como quem vai ampliando, pouco a pouco, as margens do próprio mundo.

Mas não é só isso. Porque, ao mesmo tempo, ele nos levou até o Grajaú. Nos apresentou o seu território, as suas pessoas, os seus caminhos. Como se dissesse, sem dizer: “vocês também precisam conhecer de onde eu venho”. E nós fomos. E ficamos. E criamos laços. Porque a cidade, quando é vivida de verdade, não é uma geografia — é uma rede de afetos.

O tempo passou, como sempre passa, mas nem sempre com esse tipo de delicadeza. Emerson se casou com a Aninha, teve filhos, comprou a própria casa. Cresceu. E cresceu sem romper com o início, o que é talvez uma das formas mais bonitas de crescer.

Hoje, ele lidera a manutenção dos nossos espaços. Roosevelt e Brás. Comanda uma equipe. Estuda no ensino superior. Atravessa diariamente uma cidade que insiste em ser longa demais para quem precisa dela inteira. Faz isso de moto, roubando minutos do trânsito para devolver à vida. E vence. Todos os dias.

Emerson tem 41 anos. Está em nossas vidas há 24.

Mas há algo que não mudou. Aquela frase –  “eu queria ter um futuro” – ainda ecoa. Só que agora, talvez, ela já não seja um pedido. Talvez tenha se transformado em outra coisa. Uma constatação discreta. Quase silenciosa.

Porque aprendi. Existem muitos tipos de pessoas. Não apenas aquelas que constroem paredes. Existem as que constroem caminhos. E, quando percebemos, já estão ajudando a sustentar aquilo que um dia também as sustentou.

Emerson é um dos nossos. E há nisso um orgulho que não se diz alto. Mas que permanece. Como certas luzes de teatro. Invisíveis para quem olha de fora, mas absolutamente fundamentais para que tudo exista.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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