Como surgiram as Satyrianas

Os Satyros foram fundados em 1989, em São Paulo. Nosso primeiro espetáculo foi uma pesquisa em cima da commedia dell’arte e se chamou “Aventuras de Arlequim”, que estreou em um Teatro Zero Hora, no Bixiga.

Em 1990 produzimos “Sades ou Noites com os Professores Imorais”, a partir do Marquês de Sade e, no ano seguinte, 1991, “Saló, Salomé”, o trabalho que nos levaria para a Europa, onde viveríamos de 1992 a 2000, quando inauguramos o Espaço dos Satyros Um, na Praça Roosevelt.

Em 1991 realizamos a primeira Satyrianas, que surgiu como “Folias Teatrais – uma Saudação à Primavera”, no Teatro Bela Vista, o teatro que administramos por mais de dois anos na rua Major Diogo, no Bixiga. Em 2000, de volta a São Paulo, já havia o grupo Folias D’Arte e achamos melhor mudar o nome do festival.

Mas o início das Satyrianas é bem curioso. Envolve trotes de telefone e têm muitos famosos envolvidos. Contamos essa história no livro “Cia. de Teatro Os Satyros – Um palco visceral”, que o Alberto Guzik escreveu para a Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, em 2006.


Trecho do livro “Cia. de Teatro Os Satyros – Um palco visceral”, da Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006


IVAM CABRAL– Tínhamos acabado de estrear “Salomé”, estava muito legal. E nós tínhamos um amigo, um ator, que estava no elenco de “Salomé” e que trabalhava na Apetesp. Ele foi mandado embora, ficou muito puto com a entidade e daí, pra sacanear, levou com ele a agenda da secretaria da associação, com todos os contatos. A Apetesp na época era muito poderosa, e nessa agenda estavam contatos diretos de gente como Silvio Santos, Gugu Liberato, gente de calibre alto. Então aquele menino chegou com a agenda lá no Bela Vista e me deu ela de presente: “É, me mandaram embora e eu trouxe isso comigo, fica de presente para você”. Eu disse: “Gente do céu, olha isso, tem o telefone de todo mundo aqui”. E comecei a rir. Ele me falou que talvez eu precisasse de algum dos telefones que estavam ali e saiu. Eu abri a agenda meio aleatoriamente e caiu no número da Eva Wilma. Tava ali na sala o  Fauze El Kadre, ator dos Satyros. Eu disse pra ele: “Mas o que eu vou fazer com o número de telefone da Eva Wilma?” Imediatamente me ocorreu uma molecagem e eu sugeri a ele: “Vamos passar trote nesse pessoal”. E rimos. “Vamos”, ele respondeu. Então a gente começou a passar trote, começamos na letra A, e fomos passando trote em todo o mundo que encontrávamos ali: Dercy Gonçalves, Eva Wilma, Raul Cortez, Ruth Escobar. Pra Dercy Gonçalves, lembro até hoje do trote. Eu liguei, era no Rio de Janeiro, ela atendeu, ela, a própria. Eu perguntei: “É do açougue?” E ela: “Não”. Eu: “É que eu passei aí em frente e vi uma porca na janela”. E desliguei o telefone, morri de rir, porque, imagine, passar um trote na Dercy! Era o máximo. Fomos passando trote, uma tarde inteira passando trote, até chegar na letra V. Um dos primeiros nomes era Vanusa. Eu liguei para a Vanusa, ela atendeu. Eu, é obvio, disfarçava a voz: “Aqui é o Marcelo, e eu queria contratar você”. Era setembro, o mês estava começando, acho que era dia 1º de setembro. “A gente está em setembro, e eu queria contratar você para cantar ‘Manhãs de Setembro’ às seis horas da manhã, no bairro do Bexiga.” E a Vanusa, do outro lado, achou legal a idéia. “Nossa, que legal!” “É, e daí a gente vai saudar a primavera às seis da manhã e você desce a rua cantando.” Eu falava umas coisas absurdas pra a Vanusa, e ela: “Que lindo, então eu desço a rua toda?” Eu: “Sim, durante horas, muitas horas, vamos ficar saudando a primavera”. A Vanusa, louca, foi topando tudo, achando tudo muito lindo e dando corda para mim. Daí, quando estava lá no meio do delírio com a Vanusa, tapei o bocal do telefone e falei pro Fauze: “Cara, acabei de ter uma idéia genial”. Voltei à Vanusa: “Tá bom, Vanusa. Estamos combinados. O Ivam Cabral vai ligar para você, e daí acertam tudo”. Desliguei e falei para o Fauze que eu acabara de ter a idéia incrível de fazer um evento de 24 horas ininterruptas, durante o qual a Vanusa ia se apresentar cantando “Manhãs de Setembro”, na chegada primavera, e nós, os Satyros, a gente ia cantar, dançar, fazer um monte de coisas lá no Teatro Bela Vista”. Assim foram concebidas as Satyrianas, no formato que a gente conhece hoje. Daí eu liguei seriamente para a Vanusa, ela topou então cantar às cinco horas da manhã do dia 21 de setembro, pra saudar a primavera. Depois que a Vanusa topou, eu peguei aquela agenda seriamente e chamei gente, muita gente. Daí, o Antônio Fagundes, que fazia “O Dono do Mundo” na tevê, um grande sucesso, topou ir também. Quando o Fagundes topou, eu pensei que nós tínhamos tudo na mão. Intensificamos a divulgação, e até a Globo colocou um link direto do Bela Vista, com o Maurício Kubrusly apresentando. Veio na cola a TV Cultura, que mandou a reportagem do programa Metrópolis. Compareceu até o diretor de teatro Moacyr Góes, que estava estourando no Rio de Janeiro. Nós trouxemos ele do Rio com passagem comprada com um cheque emprestado de uma amiga, pré-datado. Sílvia Poppovic mediou um debate com Antonio Fagundes, Débora Bloch e Diogo Vilela. Apareceu o Benedito Ruy Barbosa, a gente trouxe Celso Nunes, Ademar Guerra, Gianni Ratto, Letícia Sabatella, uma porrada pessoas bacanas.


RODOLFO GARCÍA VÁZQUEZ
– E as 24 horas em que o Ivam pensou no início cresceram muito. A gente começou numa quinta-feira ao meio-dia e acabou no domingo à meia-noite. Foi uma coisa! Quando a gente viu… O Ivam foi enlouquecendo com os contatos, enlouquecendo, enlouquecendo. Quando a  gente falou: “Olha, é muita coisa, não sei como é que nós vamos fazer isso”, já era tarde. Estávamos comprometidos, tínhamos que fazer. E olha que eram quatro dias sem dormir, o teatro aberto. E rolou de tudo. Tinha uma bacante muito louca que jogava vinho em todo o mundo, banda de rock de madrugada. A gente não sabia o tamanho que ia tomar o evento. Foi quando veio a Globo com o Maurício Kubrusly, link ao vivo e tudo, a TV Cultura, uma doideira. A rua estava de um jeito que não passava carro, não dava pra andar. Parada, de tanta gente ali. E não sabíamos o que fazer. A gente nunca mais conseguiu reproduzir, nem  na Roosevelt, o que aconteceu na Major Diogo.


IC
– Em quantidade de pessoas. Porque lá, literalmente,  a rua parou mesmo., Ademar Guerra, eu lembro assim, que, de repente, no meio da rua, você encontrava essas pessoas, como o Ademar, que era um dos maiores diretores do Brasil, por exemplo, que para a gente era uma pessoa mitológica, e estava ali, com a gente. Foi muito lindo o que aconteceu naquele momento. E o engraçado é que a gente não tinha condição nenhuma. O teatro era muito precário.


RGV
– Sim, cheio de problemas, goteira, os camarins eram nojentos. Lembro de uma situação constrangedora. Ouvi Sílvia Poppovic e Debora Bloch falando sobre o banheiro. A Debora quis ir ao banheiro, no meio do debate e perguntou onde era Sílvia respondeu: “Se eu fosse você, não ia”. E eu, do lado das duas, roxo. Acontece que a gente queria fazer, não interessava como. Nós éramos muito pobrezinhos. “Salomé” tem uma história maravilhosa: fizemos sem um centavo. O único dinheiro que gastamos em “Salomé” foi para fotocópias de programas da peça. O programa era uma fotocópia que a gente tirava. Só gastamos nisso. Todos os figurinos, nós ganhamos. Eram sobras de fardo que usamos, e lonas de pneu. Não tínhamos um centavo pra gastar. Os refletores eram de lata de leite em pó. Então imagina, naquele estado de pobreza, naquela falta de condição financeira total, nós pirávamos, enlouquecíamos, e inventávamos um evento como as Folias Teatrais. Aquilo foi coisa de doido. E era demais de precário aquele teatro. Problemas com encanamentos, instalação elétrica. A capacidade da rede elétrica era mínima, não dava pra acender, por exemplo, cinco refletores ao mesmo tempo.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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