O dia em que descobri que não poderia mais comer carne

Eu cresci no meio do mato, cultivando nossa própria comida, plantando em toda parte e criando nossos próprios animais para o abate, que também era realizado ali, no quintal de casa – muito grande, com uma horta, um pomar, um galinheiro e um chiqueiro, para os porcos. 

Todos os domingos, minha mãe pegava um dos frangos e, enquanto colocava uma panela de água para ferver, estrangulava o pobre animalzinho que era largado no chão enquanto se estrebuchava, antes de morrer. A água, agora fervente, servia para depenar o animal.

Vez ou outra, o porquinho, que depois de algum tempo ficava imenso, era abatido. E esse era um dia de festa. Normalmente em um sábado, e a família toda participava do abate. Cresci ouvindo os gritos dos porcos quando morriam. Suas mortes sempre eram doloridas demais e esses gritos, ai, doem até hoje quando me lembro deles.

Cresci sem bicho de estimação em casa. Mas nossos quintais eram sempre cheios deles. Gatos e cachorros que eram cuidados coletivamente pela minha comunidade. Mas nunca estabeleci uma relação direta com nenhum deles.

Me lembro de uma vez, um vizinho nosso que estava sempre bêbado, colocou os filhotinhos de uma gata em um saco e massacrou-os, batendo o saco muitas vezes contra uma parede. Durante a vida toda essa imagem não me saiu mais da cabeça. 

Quando eu estudava administração de empresas em Curitiba, devia ter uns 19 anos, lembro bem. Eu voltava pra casa quando uma gata linda demais, devia ser angorá ou persa, estava no lindo jardim de uma casa igualmente linda de um lindo bairro. Estava ali feliz da vida, a gata. Eu parei no muro, fiz uns gracejos, ela se aproximou e imediatamente ficamos amigos. 

Resolvi roubá-la para mim. Levei a mocinha para meu apartamento, eu morava sozinho. Desde o primeiro instante, a gata se mostrou completamente incomodada com a situação, era evidente que ela não estava gostando nem um pouco daquele rapto. Mas eu não tinha noção alguma do que estava fazendo. No dia seguinte, de manhãzinha, eu fui trabalhar e deixei a gata trancada no meu apartamento, no décimo sétimo andar.

No início da noite, quando volto pra casa, já na saída do elevador para o meu andar, eu percebo algo estranho. Tem várias pessoas por ali, paradas em frente à minha porta, um alvoroço, na verdade. Elas me veem chegar e imediatamente querem saber:

— Que animal você trouxe para a sua casa?

Eu estou assustado e quando me aproximo da minha porta começo a ouvir uns uivos, uns grunhidos muito estranhos, parecem mesmo de uma fera. Eu conto aos meus vizinhos da gata que eu havia encontrado na noite anterior. Minto, digo que estava abandonada e que resolvera trazer para a casa. Mas os sons que vêm do apartamento são aterrorizantes.   

— Você tem mesmo certeza de que não era uma jaguatirica, uma onça?

Estou realmente amedrontado, será que não era mesmo uma fera? Quem sabe se na escuridão da noite não reparei direito. Não sou o único medroso ali. As pessoas também estão receosas, os uivos são de causar arrepio. E cada vez mais altos e cada vez mais medonhos. Depois de um tempo, um dos vizinhos, o mais corajoso, resolve abrir a porta. Neste momento, a gatinha, que era tão somente uma gatinha muito linda, começa a correr desesperadamente pelo apartamento que é pequeno. Corre muito e muito rápido, se jogando nas paredes, nos móveis, até que encontra uma pequena fresta na janela que, com sua violência ao se jogar nela, se abre enquanto ela salta do décimo sétimo andar, em direção a um terreno baldio. 

Foi das cenas mais tristes da minha vida. E eu só me lembrava da gata no jardim de sua casa, linda e feliz, encantando a vizinhança e todo mundo que passava por sua rua. Como pude ser tão insensível, egoísta e desumano?  

Passaram-se muitos, muitos anos, quase trinta, até que eu tivesse coragem de adotar uma gata. Sofia veio depois de muito planejamento. Quando ela chegou em casa já tinha caminha, brinquedos e até potes de petiscos. Viveu feliz por 12 anos. 

Sofia acabou trazendo muita alegria pra minha vida e me ensinou coisas incríveis. A partir deste encontro vieram outros bichanos e a vida parecia fazer sentido, afinal.

Mas um dia eu conheci os cães Cacilda e Chico, os dois resgatados das ruas da cidade. Começaram a sair comigo, a trabalhar comigo, a viajarem comigo, coisas que gatos não fazem porque odeiam sair de casa.

A verdade é que comecei a passar muito tempo da minha vida com Chico e Cacilda. Feriados e festas, inclusive. E isso trouxe uma intimidade diferente com os bichanos, que passaram a ter comigo uma relação espiritual, de devoção, como se eu fosse servo deles. Mas sobre isso falamos outra hora, porque agora é a relação da Cacilda e do Chico que me motivam a reflexão de hoje.

Os cachorros são quase humanos, têm reações e sentimentos humanos. Eu converso com eles, faço confidências, promessas e até juras de amor. Então…

Então que Cacilda e Chico começaram a fazer a ponte com a minha infância, com os frangos degolados pela minha mãe, com os porcos abatidos pela minha família e aquela imagem do vizinho bêbado com os gatinhos no saco começaram a vir forte na minha cabeça.

Me lembrei das galinhas da minha infância e levei um susto porque me lembrei que as nossas galinhas eram muito carinhosas, adoravam humanos, ficavam atrás da gente pra lá e pra cá, e que roçavam suas cabecinhas em nossas mãos pedindo carinho, exatamente como fazem os cachorros, daquele jeito que você acaricia e quando para eles vêm com a cabecinha pedindo mais carinho. As galinhas pedem igualzinho, que nossas mãos as acariciem, as mesmas mãos que irão matá-las mais tarde, ah, que paradoxo mais cruel!

Foi por isso que, em algum momento, meu organismo começou, por conta própria, a rejeitar carne. Um dia acordei e não conseguia mais, de repente, sem aviso. Parecia até que meu corpo todo fazia sincronia direta com o que eu pensava e sentia. Todos os meus órgãos em uma única direção como se, finalmente, eu tivesse compreendido o meu lugar neste planeta.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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Um comentário sobre “O dia em que descobri que não poderia mais comer carne

  1. Que lindo Ivam…uma história comovente que me faz respirar fundo e acreditar no fim do holocausto animal (mesmo que ainda demore um pouco); acreditar em tempos de respeito e amor a todos os seres vivos. Gratidão.

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