E o que a gente faz quando sente falta do cheiro de gente?

É incrível, mas eu já tive 20 anos e um dia cheguei, pela primeira vez, numa escola de teatro, ávido por uma formação. Eu tive a sorte de ter sido recepcionado pela Lúcia Camargo; que, à época, dirigia o Teatro Guaíra em Curitiba e que havia sonhado aquele centro de formação. Lúcia facilitou muito a minha vida e sempre me ofereceu flores, por todo o tempo em que convivemos. E foi muito tempo, mais de 35 anos!

Então me ocorreu, hoje, trazer flores. Para a Lúcia, que nos deixou recentemente, e para vocês. Embora artificiais, estas flores têm um significado especial. Elas vêm diretamente da minha peça, “Todos os Sonhos do Mundo”. Flores cenográficas para uma experiência teatral e real. E faz todo o sentido. Porque a realidade dura da vida só poderá ser entendida através da abstração da arte. Não temos outra saída, não suportaríamos .

Mas o surpreendente da vida não é exatamente viver; mas ver, que em algum momento, o tempo passou e passou rápido demais. Então as falas se invertem, as posições se deslocam e cá estamos nós.

Eu me chamo Ivam Cabral e eu sou fruto do impossível, do improvável. Nasci numa pequena casa de madeira azul, com janelas amarelas, em Ribeirão Claro, no interior do Paraná, às margens do rio Paranapanema. Sou o quinto filho de um pedreiro analfabeto e de uma costureira que tiveram seis filhos.

Éramos muito pobres, plantávamos o que cultivávamos. Então, desde muito pequenino, eu aprendi a conversar com a natureza. E falar com a natureza era olhar para o céu, que nos revelava tudo o que precisávamos saber. Sequer precisávamos de relógio para ver as horas. Era só olhar pro céu, em direção ao sol, e ele nos contava que horas eram. Minutos, inclusive.

Minha região era muito fria. No inverno geava muito. Então, sempre antes de dormir a gente olhava pro céu. Se o céu estivesse azulzinho, sem nenhuma nuvem, batata, no dia seguinte gearia. Assim, prudentes que éramos, íamos ao quartinho de bagunça do meu pai, onde ele guardava suas ferramentas, pegávamos uns plásticos e cobríamos nossas plantações. Deste modo, e desde muito cedo, aprendi que ninguém encontra a paz evitando a vida. Viver, para a minha família, sempre foi algo urgente.

Então, pelo aprendizado e pela urgência da vida, temos que reagir a este momento tão conturbado. Para a medição disso tudo, precisaremos da realidade. E da ciência para nos nortear. Não sejamos negacionistas. O teatro e a educação precisam continuar existindo. Se a única maneira que encontramos foi o modo digital, então, por favor, vamos a ela!

E lembrando que, por trás dessas sessões digitais, sempre existirá uma vida ansiosa por respiro. E ninguém mais do que nós, povo do teatro, está chorando neste momento. Mais do que geladeiras que necessitam de abastecimento, lembremos que há uma vida clamando por sonhos.

Enquanto isso, vou chorando por aqui, mas só de vez em quando. Com saudade da minha vida na praça Roosevelt e no Brás, desaparecida há quase um ano. E com saudade, principalmente, do cheiro de gente.

Mas me lembro agora de Andrew Solomon que nos contou em um de seus TEDx sobre um sábio budista que disse que os ocidentais acham erroneamente que o Nirvana é o que se alcança quando todas as suas angústias ficam para trás e você só tem alegrias a esperar pela frente.

Mas esse sábio afirmou, também, que isso não seria o Nirvana, porque sua felicidade no presente sempre seria obscurecida pela alegria do passado. O Nirvana, disse ele, é o que se alcança quando só há alegrias a esperar pela frente e encontra-se naquilo que parecia aflição a semente da alegria.

Então, que essas minhas flores, embora cenográficas, apontem o futuro, onde encontraremos, claro que sim, as alegrias que estarão à nossa espera. E estarão, tenham certeza disso.

Bem vindes à SP Escola de Teatro!

 

+++ Minha fala para a recepção dos alunes e equipe pedagógica da SP Escola de Teatro, nesta manhã. Foi uma fala de improviso, mas quis recuperá-la em texto. Acho importante pontuarmos este momento. Pelos sujeitos históricos do teatro.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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