Minha Opinião – Um livro inesquecível

“A Paixão de A.”, de Alessandro Baricco é um livro inesquecível. Narrado em primeira pessoa, a ação se passa nos anos 1970, em Turim, na Itália, e conta a história de quatro amigos católicos de classe média e suas relações com a fascinante Andre, jovem, rica e que “aparece de vez em quando” e “fica quase o tempo todo com os mais velhos”.

O livro é veloz, não tem divisão de capítulos – uns poucos respiros de espaçamento, apenas – e é angustiado do começo ao fim. Aliás, em clima cinematográgico, tem um início surpreendente onde o narrador conta, em apenas duas páginas, um diálogo decisivo com seu pai.

O narrador, no caso, não tem seu nome citado em momento algum do livro, o que nos faz crer que possa ser o próprio Baricco a personagem central da obra. Além do fato do livro ser narrado em primeira pessoa, existem algumas semelhanças com a biografia do autor. Nascido em 1958, Baricco nasceu e passou sua adolescência na Turim dos anos 1970.

Mas o que encanta na obra são as reconstruções e, consequentemente, as analogias que os quatro amigos fazem da bela Andre. Os amigos estiveram com a jovem no máximo três ou quatro vezes e isso foi definitivo em suas vidas. Mas o genial de Baricco é que vamos compondo a história de Andre através de relatos de outras personagens. Seu retrato, portanto, é tecido a partir de revelações que vêm de fora, dos outros. Afinal, “Andre não é de ninguém – mas nós sabemos que, também é de todos”.

Bobby, Luca, Santo e o narrador, que herdaram “a incapacidade para a tragédia e a predestinação para a forma menor do drama”, são os amigos que irão ter suas vidas modificadas pelos encantos da liberal Andre. Mas é a culpa, o medo e, principalmente, o peso da religião que irão determinar os caminhos dos quatro amigos.

O tom deste “A Paixão de A.” é trágico e o livro é triste, muito triste. Mesmo quando, ao final da leitura, percebemos um certo “amadurecimento” de nossos protagonistas. Afinal, estamos diante de um “romance de aprendizagem” ou “de formação”, aquele que revela ou descreve um processo de amadurecimento moral ou psicológico de uma personagem.

Trecho:
No fundo dessa epopeia às avessas, encontramos Deus. É um passo natural, que vem por si mesmo. Acreditamos tanto em cada criatura que nos parece normal pensar em uma criação – um gesto sapiente que chamamos pelo nome de Deus. Assim, nossa fé nem é tanto um evento mágico e incontrolável, mas uma dedução linear, a extensão ao infinito de um instinto herdado. Em busca do sentido, aventuramo-nos para muito longe, e no final da viagem havia Deus – a total plenitude do sentido.


Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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