MEMÓRIA | A convite da Revista E, do Sesc SP, falei sobre Ismael Ivo

Ismael Ivo e seu projeto dos sonhos

No início dos anos 1990, nós, Satyros, perambulamos muito pela Europa. Embora a nossa relação com o velho continente continue até hoje, esse momento foi de grandes descobertas. Fizemos turnê com nosso espetáculo “A Filosofia na Alcova”, de Portugal a Ucrânia, passando pela França, Inglaterra e Escócia, entre outros, atuando, na maioria das vezes, em grandes teatros desses lugares. Em Londres, ficamos em cartaz no Battersea Arts Centre, nessa época o templo sagrado da experimentação artística no mundo. Foi ali que conheci Ismael Ivo. E foi um encontro tenso. Soube, desde o início, eu estava diante de um deus. Embora Ismael tenha sido bastante simpático, tremi e perdi a voz durante o encontro. Mas tinha razões. Muitas.

A primeira delas é que Ismael, desde o tempo da minha formação em teatro na PUC do Paraná, em Curitiba, era uma espécie de ídolo maior. A segunda é que eu havia sido testemunha de que a chegada do bailarino e coreógrafo havia parado o meio artístico no Reino Unido. Além de estar em todas as primeiras páginas dos segundos cadernos dos principais jornais do país, cartazes enormes com sua foto eram distribuídos em todas as estações de metrô de Londres. Lembro bem desses cartazes, também. Traziam uma foto em preto e branco do Ismael, corpo nu, apenas cobrindo suas partes íntimas com sombras.

Depois disso, passamos muitos anos sem nos encontrarmos. Como espectador, ia assistindo aos seus trabalhos e testemunhando seu sucesso. Não me esqueço. Lembro como se fosse hoje, o dia em que Lisboa também parou para recebê-lo. Final dos anos 1990, talvez 1998 ou 1999, festival Culturgest, Fundação Calouste Gulbenkian. Dessa vez não consegui assisti-lo porque os bilhetes se esgotaram muito rapidamente. Mas parece que o destino estava nos unindo, de certa maneira. Na noite em que Ismael estreou seu espetáculo em Lisboa, eu fui jantar na Cervejaria Trindade, no Chiado, com um grupo de amigos, onde estava o professor e tradutor alemão Berthold Zilly, que verteu para a língua de Goethe a obra de Euclides da Cunha. Papo aqui, papo ali e, de repente, Ismael Ivo adentra o espaço com sua equipe. Não me lembro direito como se sucedeu, mas terminamos juntando mesas, numa grande confraria e, a partir dessa noite, Ismael seria um amigo querido, que falávamos vez ou outra, sempre nos vendo pouco, mas conectados através de e-mail.

Em 2006 fizemos uma turnê pela Alemanha com o espetáculo “A Vida na Praça Roosevelt”, atuamos em Mülheim an der Ruhr, na região de Düsseldorf, e Ismael estava em nossa plateia. Foi nessa noite que conversamos pela primeira vez sobre um projeto que estávamos gestando, a SP Escola de Teatro. Ismael ficou bastante interessado e, a partir de então, começamos a falar sobre um projeto pessoal seu, que era a de construção de uma escola de dança em São Paulo, com vocação social: voltado para a população carente, que adentrasse comunidades e favelas, que desse visibilidade aos pretos e à periferia.

Em 2009, nossa SP Escola de Teatro foi inaugurada e, um tempinho depois, fui procurado pelo Ismael, que queria desenvolver um projeto conosco, o Biblioteca do Corpo, uma ponte internacional para conectar bailarinos emergentes brasileiros com o mundo, a partir de seu trabalho em Viena, na Áustria. Um projeto muito ousado, em três fases. Na primeira, professores compartilhariam seus conhecimentos com alunos em masterclasses, durante duas semanas. Na segunda, os bailarinos deveriam participar de um programa de educação individual dentro do ImPulsTanz Festival, sob a orientação do próprio Ismael; e, na terceira fase, estes bailarinos dançariam uma coreografia inédita do próprio Ismael, com os 15 bolsistas, para apresentações em Viena e São Paulo.

Eu me arrepiei com tamanha ousadia. Porém como fazer isso, afinal? De onde viriam os recursos? Mas Ismael era mago também no território das realizações. Em pouco tempo, SP Escola de Teatro estava conectada com o Sesc São Paulo e a Secretaria de Cultura do Estado e, enfim, em 2014, o projeto foi colocado de pé, com uma equipe pra lá de especial, liderada por Cleo Miranda, Cássia Navas, Renata Bittencourt e Rosana Paulo da Cunha.

Não sei exatamente o porquê, mas acabei não indo pra Viena, enviando para me representar o Tato Consorti, meu assessor na SP Escola de Teatro, que passou dez dias no ImPulsTanz Festival, que aconteceu 2015, quando estreou “Das Tripas… Coração”, o espetáculo que resultou desse trabalho.

O resultado desse “Das Tripas… Coração” era sublime. Sempre achei que grande parte da evolução teatral veio da dança. Sem a dança, o teatro seria pouco, muito pouco, ou até mesmo nada. A dança é arte da cena, é mais do que autoconhecimento, é poesia em movimento. Esses intercâmbios de linguagens, a propósito, são vitais no trabalho de Ismael, cuja produção acentua a teatralidade da cena e a teatralização do corpo dos bailarinos atuantes. O primeiro solo que coreografou, inclusive, “Ode para o Rei de Harlem”, foi desenvolvido a partir de um poema de Federico García Lorca.

A transdiciplinaridade e o apreço pela maestria da técnica, contudo, jamais levaram a um esteticismo neutro, haja vista sua conexão com ícones da ressignificação cultural da negritude nos anos 1960 e 1970, como Abdias  do  Nascimento,  Thereza  Santos e Helena  Teodoro, por exemplo. Finalmente, Ismael ainda utilizava a dança como ferramenta de acessibilidade e transformação social. Como não amar?

Mas, calma. Ismael não era fácil. Terminamos esse trabalho muito abalados. Porque o projeto previa, ainda, uma série de encontros, palestras e workshops. O primeiro encontro, realizado na sala Nydia Lícia, no Teatro Sergio Cardoso, com cerca de 900 poltronas, recebeu um público de cerca de 100 pessoas. E Ismael ficou possesso. Como, um encontro que reunia nomes como Iracity Cardoso, Cleo Miranda, Dudude Herrmann, Renata Bittencourt, Rosana Paulo da Cunha, Cássia Navas, o dele e o meu, poderia ter tido tão pouco público? A partir daí, foi uma sucessão de problemas, em que Ismael, acostumado a trabalhar na Alemanha nos muitos últimos anos, questionava o profissionalismo das nossas produções. Mas eu sabia. Era só substituir o “profissionalismo” por “falta de dinheiro” que todas as respostas eram sanadas. Então decidi ficar pianinho e, sabia, o tempo resolveria tudo. E resolveu!

Um tempinho depois e já estava almoçando com o Ismael e trocando histórias e sonhos. E, chegou o momento, era hora de falarmos da SP Escola de Dança, seu projeto sonhado ao longo da vida inteirinha. Nesse momento, também já tinha decidido trocar Viena por São Paulo e estava trabalhando no Balé da Cidade, no Theatro Municipal. E tinha como assessor o Fabio Mazoni, amigo querido que tinha trabalhado comigo na SP Escola de Teatro e que assinou a direção de “O Último Stand Up”, uma peça que fizemos juntos no Festival de Teatro de Curitiba, em 2011.

A partir de então, nos falávamos com muita frequência, e Ismael havia elencado o modelo pedagógico e sistemático do projeto da SP Escola de Teatro como referência para conduzir a SP Escola de Dança. Inclusive, e principalmente, o modelo pedagógico, trabalhando com ideias modulares e suas organizações.

Ismael levou o projeto da SP Escola de Dança para o secretário Sergio Sá Leitão e o governador João Doria, que abraçaram a ideia, sugeriram uma articulação com a São Paulo Companhia de Dança e indicaram o Complexo Cultural Júlio Prestes, onde fica a Sala São Paulo, como a sede da nova instituição, que passaria a integrar o ecossistema de cultura do Governo do Estado de São Paulo.

Com a equipe da Secretaria, passamos a desenvolver em parceria o projeto, que será implantado em 2022 como SP Escola de Dança Ismael Ivo. O modelo institucional se encontra em discussão e a participação da SP Escola de Teatro foi aprovada pelo Conselho da Adaap, a Associação dos Artistas Amigos da Praça.

Durante todo esse período de isolamento social, continuamos nos falando cada vez mais. Acompanhei com muita tristeza seus problemas de saúde em junho do ano passado, quando nosso amigo sofreu dois AVCs. Mas acompanhei, também e com muita alegria, suas recuperações e vitórias.

Em março, fico sabendo através do Fabio Mazoni que Ismael havia contraído a Covid-19 e que se encontrava na UTI do Sírio Libanês. Tremi. Enviei uma mensagem a ele pedindo que se comunicasse comigo assim que possível. Nos falamos até poucos dias de sua morte. Nossa última mensagem, no dia 29 de março, veio de um Ismael esperançoso:

Tudo se resolvendo sem problemas
Send you my love

Mas, sabemos, o final não veio feliz. No dia 8 de abril, infelizmente, nosso querido foi vencido pelo coronavírus.

Fonte: Revista E, Junho de 2021

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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