Uma fila, um dia, deu início a um gesto grandioso. Uma fila longa, inquieta, cheia de nomes ainda desconhecidos. Mas, no entanto, já carregados de destino.
Quando inauguramos a SP Escola de Teatro, em 2009, não sabíamos exatamente o que viria ao nosso encontro. Havia, sim, anos de pensamento, de reuniões, de desejo coletivo. Mas há uma diferença entre imaginar um mundo e vê-lo chegar, de corpo inteiro, diante de você. E ele chegou. Chegou na forma de quase 1.500 pessoas disputando 200 vagas. Chegou na forma de mãos que preenchiam fichas, olhos que buscavam alguma confirmação silenciosa, vozes que hesitavam entre a esperança e o medo.
E fomos nós mesmos, ainda aprendendo a existir como instituição, que recebemos esses primeiros gestos. Havia algo de profundamente bonito nisso. Não havia distância. Não havia protocolo que nos protegesse. Estávamos ali, lado a lado, inscrevendo pessoas e, sem saber, sendo inscritos por elas em uma história que ainda não tinha nome.
Lembro de Alberto Guzik, figura incontornável da crítica teatral brasileira, sentado à mesa, recebendo candidatos. Havia uma delicadeza rara naquele gesto. Como se ele, que passou a vida analisando o teatro, naquele instante decidisse escutá-lo antes mesmo de ele acontecer.
Foi nesse movimento, quase doméstico, que Maria apareceu.
Linda, veio acompanhada de sua filha, Helô, ainda um bebê, impaciente com o tempo dos adultos. Maria falava pouco. Havia nela uma timidez que não era ausência, mas contenção. Como se guardasse algo que ainda não sabia onde colocar. Enquanto ela preenchia a ficha, Helô resmungava, reclamava do mundo, como fazem os que ainda não aprenderam a negociar com ele.
Naquele momento, não havia nenhuma evidência. Nenhum sinal de que ali estava uma das grandes dramaturgas do país. E talvez seja exatamente isso que mais me comove. O fato de que o extraordinário, muitas vezes, chega disfarçado de cotidiano.
Reencontrei Maria no primeiro dia de aula. Ela havia passado. E, a partir dali, começamos a construir algo que não caberia em nenhuma ficha de inscrição: uma relação. Dessas que não se explicam, mas se reconhecem. Dessas que crescem no tempo como quem aprende a confiar.
Três anos depois, em 2012, estreávamos Cabaret Stravaganza. Um espetáculo que não queria apenas existir, mas tensionar o seu tempo. Dirigido por Rodolfo García Vázquez, a peça investigava a tecnologia, a internet, os limites do corpo e da identidade. E ali estava Maria. Agora não mais como candidata, mas como dramaturga. Talvez em sua primeira experiência profissional. E já tão inteira.
Havia, no espetáculo, uma cena que ainda hoje me atravessa. Leo Moreira Sá, já em processo de transição de gênero, saía da cabine de luz e, diante do público, falava de si – daquilo que estava em curso no próprio corpo. Não como quem pede autorização, mas como quem convoca testemunhas. A cena transbordou para a vida. Ao final da temporada, Leo realizou sua mastectomia. E o teatro, naquele instante, deixou de ser metáfora. Tornou-se matéria.
A peça viajou. Circulou pelo Brasil. Chegou a Estocolmo, em 2013. Foi chamada de “teatro ciborgue performativo”. Recebeu olhares curiosos, espantados, fascinados. Pia Huss escreveu, no Dagens Nyheter, que nunca tinha visto nada parecido. E talvez não tivesse mesmo. Porque o que estava em cena não era apenas um espetáculo. Era um modo de existir.
E eu pensava: que curva bonita a vida desenha. Aquela menina tímida, que chegou com uma criança no colo para fazer uma inscrição, agora nos devolvia caminhos. Nos ensinava. Nos empurrava.
Há algo de profundamente comovente quando um encontro deixa de ser casual e passa a ser formador. Quando alguém que você acolheu passa, de algum modo, a te formar também.
Maria seguiu. Brilhou no teatro, na televisão, nos streamings. Tornou-se aquilo que talvez sempre tenha sido, mas que o mundo ainda não sabia nomear. E, ainda, me chama de padrinho.
E eu fico pensando que, no fundo, talvez seja isso que fazemos quando abrimos uma escola: não formamos apenas artistas. Participamos, ainda que discretamente, do milagre de alguém se tornar quem é.
E há coisa mais bonita do que isso?
