Jorge Fernando, meu quase melhor amigo

Em 1994 eu andei pelo Rio de Janeiro. Vivia em Lisboa há dois anos, tinha vindo ao Brasil para tentar encontrar futuro para a minha companhia de teatro, Os Satyros. Precisando encontrar alguma estabilidade para a minha vida, respondi a um chamado da Mara Manzan, que vivia no Rio, e que me apresentou um produtor de elenco da Globo, que me recebeu para uns testes.

Mara, que era agitadíssima, conhecia todo mundo e queria porque queria que eu ficasse no Rio, que Os Satyros montasse uma sede lá. Cismou que a gente tinha que remontar “Saló, Salomé”, uma peça que tinha feito bastante sucesso em São Paulo e depois em Portugal. Levou o projeto pra Christiane Torloni, rodou o Rio comigo atrás de um espaço onde pudéssemos montar uma sede do Satyros.

Nessa época me aproximei do Emílio Di Biasi, que comandava as oficinas de atores e dirigia novelas na Globo, que também achava que seria legal Os Satyros ter uma raiz no Rio. Emílio viraria, a partir daí, um melhor amigo, sempre muito querido e incentivador. Foi o Emílio que marcou um encontro meu com o Jorge Fernando, em um bar no Leblon. Jorge iria dirigir a novela “A Próxima Vítima”, do Silvio de Abreu, e Emílio achava que eu poderia fazer alguma coisa lá.

Jorginho, como era chamado por todo mundo, chegou atrasado naquele encontro. Atrasado, não. Muito atrasado. Eu e o Emílio já estávamos quase indo embora quando Jorginho chegou esbaforido. Ficamos ali conversando por bastante tempo, eu falei do meu trabalho, o Emílio me vendendo a ele que me revela que já tinha olhado o meu material na Globo, que pensaria em mim com carinho e que entraria em contato nos próximos dias. Demos um abraço afetuoso e, antes de nos despedirmos, ele me disse:

— Tenho uma boa sensação com você. Acho que seremos melhores amigos.

Engraçado que eu saí com a mesma sensação. De que, a partir daquele dia, nós seríamos realmente melhores amigos.

Naquela época não havia e-mails nem celulares, a comunicação era feita por telefone e por correspondência. Eu, sem endereço fixo no Brasil – o Satyros tinha uma sede em Lisboa e estava produzindo muita coisa por lá –, estava hospedado na casa de uma amiga em São Paulo que vivia no Itaim, numa cobertura tríplex, na esquina da Horácio Lafer com a Faria Lima. E foi o endereço desse apartamento que eu coloquei no meu curriculum. Mas essa minha amiga estava decadente, não tinha dinheiro nem para pagar o condomínio, que era uma fortuna. Mais tarde, ela perderia o apartamento para o condomínio do prédio.

Aconteceu que, nesse meio tempo, essa minha amiga teve o telefone cortado por falta de pagamento, enquanto eu estava em Curitiba, na casa da minha família. E o tempo passou…

Nada aconteceu no Rio e nada aconteceu em São Paulo. Eu já tinha esquecido o encontro com o Jorginho e, neste momento, final de 1994, estava morando em Curitiba. No início de 1995, em fevereiro, eu venho pra São Paulo visitar a minha amiga no tríplex do Itaim. Ela gostava tanto de mim que tinha me dado um quarto nesse apartamento.

Um dia estou mexendo numas coisas no apartamento e encontro um telegrama endereçado a mim. Fechado, nunca tinha sido aberto e lido por ninguém. Abro e é da Globo, me chamando para conversarmos sobre a novela do Jorginho Fernando. Mas estávamos em fevereiro e a correspondência era de novembro. Eu ainda tento falar com o número que estava no telegrama, mas sou informado que o elenco já estava fechado e que a novela estrearia dali a poucos dias.

Falei com o Emílio, que lamentou o ocorrido e, uns dias depois, recebo um telefonema do Jorginho, dizendo que tinha procurado por mim, que teria sido lindo ter trabalhado comigo, mas que o elenco estava fechado, que ele tinha adorado ter me conhecido e que não faltariam oportunidades para trabalharmos juntos.

Foi triste tudo isso porque foi uma das fases mais perdidas da minha vida, onde eu não tinha nem sul nem norte e nenhum dinheiro. Por muito tempo pensei o que teria acontecido na minha vida se eu tivesse feito essa novela.

O tempo passou e eu nunca mais falei com o Jorginho. Em 2000, já com endereço fixo em São Paulo e preparando a sede do Espaço dos Satyros na Praça Roosevelt, Jorginho estava em cartaz no Teatro Procópio Ferreira com o espetáculo “Boom”. Minha mãe veio do interior do Paraná para passar uns dias comigo e peço a ela que escolha alguns espetáculos para assistirmos. Foi ela que decidiu por “Boom”.

O Teatro Procópio Ferreira é enorme. E lá estava eu e minha mãe assistindo ao espetáculo do Jorginho quando, lá pelas tantas, em um momento com a plateia, sou reconhecido por ele, que faz uma brincadeira comigo, me chamando pelo meu nome. Lembro da alegria da minha mãe me achando famoso e importante.

Ao final da peça, não tive coragem de procurar o Jorginho no camarim. Até tentei. Mas naquele momento ele fazia tanto, mas tanto sucesso, que me senti constrangido. Porque havia muitas dezenas de pessoas querendo falar com ele. Fui embora e nunca mais nos vimos.

Agora há pouco soube de sua morte. Jorginho tinha 64 anos, uma criança. A idade do Alberto Guzik, quando morreu. Aliás, os dois tinham muitas coisas em comum. A jovialidade e a paixão pela vida.

Inevitável não sentir saudades de uma história que não vivemos juntos mas que foi tão, tão importante na minha vida.

Vá com Deus, Jorginho, meu quase melhor amigo.

Ator, roteirista e cineasta. Co-fundador da Cia. Os Satyros e diretor executivo da SP Escola de Teatro.
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